sexta-feira, 26 de junho de 2015




Textos vencedores do concurso literário do Sarau com Café




1.º lugar

Essa é só mais uma carta de amor
(Mayara Morales)


Já percebeu como todas as cartas de amor são sobre amores passados, amores não correspondidos ou sobre despedidas? Eu já escrevi muitas cartas para os meus amores atuais que hoje fazem parte do meu passado. Um passado que carrego comigo em cada marca de expressão presente em meu rosto. Tenho que te contar que a vida deixa marcas e como logo poderá ver, comigo não foi diferente.
            Aliás, sinto-me na obrigação de te alertar sobre mim. Sou impaciente com atrasos, então quando for a hora certa não se acanhe em aparecer. Prometo estar pronta e terei em mãos uma nova chave do meu coração feita sob medida para você. Também sou distraída, então se eu te encontrar e meus olhos estiverem bloqueados por alguma poeira ou restos mortais de algum dos meus relacionamentos malsucedidos, me abrace e me faça ver novamente o que
tenho diante de mim.
E o meu sentido de direção é péssimo. Consigo me perder dentro da minha própria casa e com mais frequência ainda, me perco em meus pensamentos. Não fiquetriste comigo quando meus pensamentos forem mais interessantes que do que a nossa roda de amigos que fala sobre trabalho.
            Desde já peço desculpas pelas vezes que meu mau-humor estragar algum jantar ou algumpasseio. A minha TPM, às vezes é inconveniente. Eu poderia prometer ficar ao seu lado para sempre, mas acredito que você já deve ter ouvido muito isso. Ouvir as mesmas promessas cansa. Caímos na rotina e a rotina é uma das piores enfermidades de um relacionamento.
Quero te pedir apenas para ficar ao meu lado pelo tempo que nossos olhares se encontrarem distraidamente e isso ainda te fizer sorrir. Fique comigo pelo tempo em que sua mão ficar confortável junto a minha. Sussurre ao pé do meu ouvido que me ama, enquanto a minha boca for o encaixe perfeito para a sua. Mas até lá, procure-me em cada esquina, em cada bar, em cada festa e em cada biblioteca. Eu juro, eu estarei lá.


  

2.º lugar

Morfologia poética
(Douglas Márcio Kaiser)

Amo
Balizo sentimentos
Vivo intensamente cada momento
Detono minhas paixões
Encontro razões
Para ser feliz, plenamente.
Neste vaivém incessante,
Admito, sem qualquer dúvida,
É morfologia poética, palavras puras,
letras que transmitem,
A todo instante,
Todas as variações do amor.
A relação lógica das emoções
Não respeita a sintaxe,
Não exprime lógica,
Apaixonar-se é envaidecer a alma,
E conjugar o verbo amar
Sempre no tempo presente.





3.º lugar

Tempo para o amor
(Juliana Daniela Schneider)

   O pé dele batia as pedras brancas e cinzentas do calçamento da praça em ritmo semelhante ao de um entediado funcionário público que carimba a usual pilha interminável de documentos. Havia perdido a conta de quantas vezes ajeitara os cabelos desde que sentara no banco de madeira. Não podia negar que estava nervoso, porém tentava disfarçar e diluir a ansiedade na confiança absoluta que depositava nela. “Se ela disse que vem é porque vem” – repetia em sua mente atabalhoada de expectativa e felicidade.
  Suspirava só de pensar e ter novamente ao seu alcance a maciez daquelas mãos, o brilho daqueles cabelos e o perfume – ah, ao perfume dela apenas uma palavra se aplicava: incomparável!
  O sol escondia-se novamente por trás das grossas nuvens e parecia espiá-lo de vez em quando como uma criança travessa e lhe corava as faces ainda mais com seu calor. Temeu que o balão de gás em forma de coração que segurava estourasse antes que ela visse. Olhou o relógio. Quase na hora, mais dez minutos apenas.
  Recém havia se permitido distrair-se sinceramente com o pouso singelo de uma borboleta amarela nas azaléias ao lado do banco quando ouviu o som delicado de seus passos. Virou-se para contemplar a chegada daquela criatura angelical que era o sol e o sabor de seus dias assim como toda cor e todo acorde pareciam dela ter sido criado e para ela retornavam tal qual as ondas retornam para o mar.
  Usava seu costumeiro tailleur azul marinho e os lábios já ensaiavam o mais belo de todos os sorrisos. O tempo pareceu parar. Ela veio até ele e sentou-se ao seu lado. Sorriram. Namoravam há quarenta e um anos e nenhum deles sequer cogitava a hipótese de mudar esta doce realidade.



4.º lugar

Tudo e Nada
(Ramona Cornelius Reichert)

Ela era muita vida para pouco corpo,
Muita raiz para pouco chão,
Muita fome para pouco pão.
Ela era toda dor do mundo transformada em recompensa e meu amor por ela, um bocado do amor dela pelo mundo.
Ela era toda a intensidade que irradia da luz mais forte, do frio mais cruel, do fogo mais atroz.
Ela era pura e era crua e era vida e era som e era cheiro e era doce e era minha e eu ninguém.
Ela estava em mim e além de mim,
Não por mim e nem para mim.Ela estava além de qualquer bem.
Era todo universo em cor e música
E eu, sequer alguém.
Era os meus olhos
E eu sequer achei espaço para os meus braços na imensidão que era ela.




Menções honrosas

Reiniciar
(Rafael Korndorfer)

Mas me anota,
brinca comigo,
meu corpo ?
Teu bloco de nota....

Apaga, deleta
copia, cola
retalha, rasga
esmaga, esfrega...

Inicia este aplicativo
atualiza meu peito
processo que carrega
que loga....

Logo, espero
reitero meu pedido
anoto o protocolo
te devoro...

  


Paradigmas
(Cristiano Vargas dos Santos)


Há quem por mim
tenha derramado
lágrimas de paixão.
Quem tenha suspirado
em silêncio
o amor a mim
sonhado.
Quem tenha modificado
seu jeito
para ajustar-se ao meu
censurável.
Quem o caminho certo
tenha me mostrado
ainda que eu escolha
o errado.
           
Há quem
por mim
na vida e na morte
dor e alegria.

Só não há
quem por mim
os paradigmas
tenha quebrado
e me mostrado
o outro lado da linha
que eu ainda
não havia enxergado.


  

Ficar
(Henrique Kanitz)

Libertou as palavras.
Pôde voar.
Para longe,
Para o alto.

Liberdade é engraçada.
De todos os destinos
Preferiu aquele

Em que já estava.

terça-feira, 2 de junho de 2015