sexta-feira, 28 de junho de 2013

Os vencedores do concurso literário






Confira os vencedores do concurso literário do Sarau com Café alusivo ao Dia dos Namorados:

Primeiro lugar – “Três palavrinhas e um palavrão”, de Piti Dutra.

Segundo lugar – “Réquiem para o Dia dos Namorados”, de Doralino Souza-Roza.

Terceiro lugar – “Um pequeno causo sobre o Dia dos Namorados”, de Cristiano Vargas.


A comissão julgadora também indicou mais sete textos finalistas destacados no concurso, que são:

- “Amantes”, de Taiasmin Ohnmacht.
- “Bendita Fotografia”, de Herivelto Cunha.
- “O mito do casal perfeito”, de Cristiano Vargas.
- “Quase história de amor”, de Diego Pacheco.
- “Par”, de Vanessa Tavares.
- “Por um fio”, Taiasmin Ohnmacht.
- “Sinal Verde para Amar”, Cláucia Ferreira da Silva.

Parabéns a todos pela participação! Agradecemos também aos apoiadores que ofereceram a premiação (Chocolataria Gramado, O Boticário e Ricardo Santos Fotografias), além das professoras do Curso de Letras da Faccat e representantes da imprensa que integraram a comissão julgadora.

Valeu a parceria, pessoal!
Confira abaixo os textos dos três primeiros colocados:


1.º Lugar

Três palavrinhas e um palavrão
(Pitágoras Dutra - Porto Alegre)

um dia a gente encontra alguém
e nesse dia se encontra também
alguém pra conversar
alguém pra querer bem
alguém que nem a gente
alguém como ninguém que já se conheceu
alguém como você...  ou eu...

alguém pra se beijar no fim do macarrão
–dama e vagabundo de segunda mão...

alguém pra se dizer de todo o coração
as três palavrinhas e um palavrão:
eu te amo pra caralho!




2.º lugar

Réquiem para o Dia dos Namorados
(Doralino Souza-Roza – Igrejinha)
                                                                                                 

O saxofone se ajusta perfeitamente a outros instrumentos de sopro ou percussão. Tu tens uns olhos admiravelmente trabalhados. Mas, um saxofone solo é de um valor desesperado. Uns lábios úmidos, perto do obsceno.  O saxofone sozinho sobe num agudo sem fim, de um jeito abafado, quase sem fôlego. O aconchego em teu peito nu é das coisas que mais me agrada. Sem falar que o eco lamentoso e triste de um sax é inigualável. O abraço único é o teu. E a capacidade de mutação do som na busca de qualidades tão suas com um preciosismo em toda a extensão. O corpo inteiro se fazendo entrega devagar. Pra terminar nessa estranha sonoridade situada no limite do silêncio. Um tormento virando prazer paixão amor.
Aqui em cima, sob o olhar desleixado das estrelas, soltando notas sofridas no engenhoso invento de Adolpf Sax, esse calor não parece aborrecer. É suportável. E essa minha covardia parece caber dentro do corpo. Na medida. Sem maiores excessos. Apenas dor. Dor que vou transformando em sonoridade que se esvai no espaço escuro da noite. Criando essa canção exclusivamente nossa, para esse dia dos namorados.
Gosto da tua imagem perseguindo as notas musicais. Teu sorriso malicioso é lembrança entorpecente, quase absurda. Feito as primeiras aulas que teve comigo. Chegou daquele teu jeito distante, de quem estava pensando em outra coisa. Mantendo um olhar que sempre dizia algo quando soprava o instrumento sonoro. Tinhas uma jovialidade impetuosa e reluzente como esse saxofone, que me aturdiu, de surpresa, me tascando um beijo na boca no final do período.
E depois aquele suplício lento de fogo. As lições de música. Os telefonemas. E os jantares em minha casa. Apegou-se às crianças e elas o viam como a um amável estranho. Quase um irmão mais velho. Aquela inconfessável e absurda intimidade teimando em revelar-se. Então acordar de manhã sem ressaca, mas com sono e raiva surda querendo protestar. Lembro sempre da vez que estávamos aqui, uma chuva se aproximava, tu acendeu um cigarro em gestos de saudade. Me falou que o cigarro era um vicio elegante, bem mais elegante do que não revelar coisa nenhuma. E me disse que havia se apaixonado por mim. A chuva fina, os corpos sendo procura, beijos, abraços, sexo, são coisas que não se esquecem de maneira fácil.    
Daí aquela angústia de não vê-lo por dois dias. E então surgiu com um olhar de quem buscava pretexto para beber. Interrompeu a aula. Falou de poetas e dramaturgos ignorados pela maioria das mentes ocupadas e revelou sem eloquência nosso caso de amor. Tomastes uma atitude confidencial que os bons tragos proporcionam e eu resvalei em minha covardia, de novo.
Nos dias seguintes pareceu que o asfalto derretia sob o sol, afundando meus pés num lodo pegajoso e pessimista. E as famílias. Senhores e senhoras de hábitos e gostos seguros. Senhoras e senhores de frases e clichês. Fórmula religiosa perfeita. Lugar comum. E nós nunca mais tocamos saxofone com a mesma intensidade.
Foi quando veio com aquele sonho. Aquela eternidade idealizada. Tão certa. Vamos saltar desse prédio. Nada de novo. Nada exótico. Saltar daqui e só. Morte sem histeria. Sem barbárie. Rápida. Sincera. Eu me deixando levar pelas tuas frases sonoras. Pelo sax. Pelo gim. Pelo teu sorriso de menino crescido.
E naquele dia, poxa vida, tu estavas extravagante e lindo à porta da imortalidade do nosso amor, segundo tuas palavras. E de mãos dadas corremos para o grande mergulho entre os prédios de paredes envelhecidas. Mas eu parei. Covarde. Não compartilhei do ato sagrado de morrer por motivo que o valha. Sucumbi em profana covardia e, estaqueado à beira daquele abismo observei teu vôo de Ícaro.
 E tu, guri danado, completou tua descida sem hesitar, contornando magistralmente toda e qualquer crítica à tua condição de amar, abandonando-se passivamente às lembranças e saudades. Eu assisti miserável e covarde os olhares e manifestações de repulsas. Meus filhos. Minha ex-mulher. Meus velhos. Poucos amigos. Pessoas que me procuravam, quando ainda me viam como um homem reto.  Professor. Pai. Católico. Saudável. Foi nesse tempo que comecei a considerar o saxofone solitário e triste, e passei a tocar sozinho.
Gosto muito daqui de cima, é silencioso, ninguém aborrece, vejo as luzes da cidade. Quase dá pra ver a brisa levando o som em ondas mansas. E dá pra ouvir teu sussurro me dizendo coisas e me pedindo pra tocar.
Sei que noite dessas vou me livrar desse manto covarde que me cobre e alçar meu vôo ao teu encontro. Não foi ontem, mas quem sabe amanhã, ou depois dessa canção.



3.º lugar

Um pequeno causo sobre o dia dos namorados 
(Cristiano Vargas – Parobé)

  Estava o velho gaudério chimarreando à beira do fogo de chão, no galpão de sua estância, quando seu neto, um piá de não mais de dez anos, sentou ao seu lado e soltou:
  – Vovô, por que existe o dia dos namorados?
  Desprevenido com a pergunta do garoto, o ancestral deu uma bombeada na cuia e respondeu:
 – Buenas, guri! Vou contar-te um causo que ouvi quando era piazito, assim como tu. Esse quem me contou foi um tropeiro que esteve por estas bandas e ganhou pouso na casa de tio Artemio. É uma história de muitos anos atrás, na querência dos Vargas, no pampa alegretense, quando um casal apaixonado foi posto à prova para conseguir ficar junto.
  Ajeitando com um graveto as brasas do fogo, para manter a chama acesa, o avô prosseguiu.
 – Tudo aconteceu quando um peão muito garrido pediu a mão em namoro de uma prenda. A família dele era agregada do pai dela. Assim, eles viviam na mesma casa e, desde garraios, começaram a se afeiçoar um pelo outro. Mas o pai da moça, que era um tinhoso, não aceitou a união deles e trancou a filha dentro do quarto, não permitindo que o rapaz a visse. Até que um dia os dois se cansaram e o enfrentaram, e ele acabou aceitando o namoro, mas com uma condição.
 – E qual era a exigência? Indagou o neto, impaciente.
  O velho fez uma pequena pausa e franziu a testa, como se estivesse tentando arrancar dos porões da lembrança a continuação daquele conto.
  – Ah, sim! – retomou o avô – O proposto foi o seguinte: o peão teria que dar
uma volta completa ao mundo, montado no lombo de um cavalo que o sogro escolhesse.
Crente de que o rapaz não aceitaria o desafio ou se aceitasse não conseguisse concluí-lo, o pai da moça gabava-se de sua esperteza.
  – Que barbaridade, vô! – exclamou o menino – E ele aceitou?
  – Mas se não! Cuiudo como era, o rapaz bateu no peito e disse: “chinoca, espere por mim. Darei a volta ao mundo para ficarmos juntos”, e saiu em direção ao piquete, onde havia um petiço encilhado à sua espera. Ele sabia que teria de fazer a viagem do corvo e se enveredar por lugarejos onde já mais pensaria em pisar, mas pela amada seria capaz de repetir isso uma porção de vezes.  
  – E durante a viagem, ele não sentiu saudades da guria que ficou? – questionou o garoto.  
 – Sim, a lembrança da amada era tão forte que ele quase largou a peleja no meio do caminho – observou o velho. – Mas, por sorte, encontrou lá pelas alturas da Espanha um vivente metido a cigano e de quem ouviu o seguinte conselho: “não seja marica! Fique sabendo que quando gostamos de verdade de uma pessoa, estamos sempre junto dela, em pensamentos”. Deste jeito, o chiru voltou a ficar faceiro e seguiu sua viagem.
Levantando-se do cepo em que havia sentado, o velho caminhou até a janela e, com indicador riste, mirou o horizonte além das montanhas.
 – O taura andou por todos os cantos. Durante os meses de sua empreitada, ele viu casais apaixonados dançando tango em Buenos Aires; homens usando saias axadrezadas na Escócia; a fome destruindo famílias na África; construções de civilizações muito antigas na Jordânia. Até finalmente reencontrar sua prenda e poder comemorar com ela o início de seu namoro. Por reconhecimento da coragem dele, em ter arriscado a vida por amor, e pela paciência dela, comemora-se o dia dos namorados, para que todos os apaixonados possam encontrar neles o desejo de amar e de se superarem.
– E o pai da moça, o que achou de o rapaz ter voltado? – indagou o menino.
 – Buenas, ele não tinha muito que contestar. Afinal, havia sido derrotado no desafio. Mas o casal teve uma ideia. Aproveitou a comemoração de Santo Antônio, o santo casamenteiro, e fez um pedido a entidade para que arrumasse uma companheira para o velho, que era viúvo. Mas não deu muito certo. E ele ficou para o resto da vida sozinho.
 – Humm, gostei da história, vô. Mas agora vou indo.
 – Aonde tu vais com tanta pressa, guri?
 – Preciso contar isso à Marcela. É que eu e ela estamos namorando de
brincadeira. Entende, vô? – finalizou o menino, piscando para o velho, que se pôs de cócoras perto do fogo, relembrando os tempos de paquera, quando a companhia da namoradinha era a coisa mais interessante da vida.


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Concurso Literário Dia dos Namorados



Participe do Concurso Literário do Dia dos Namorados promovido pelo Sarau com café. Escreva sua crônica, conto ou poesia e envie para o e-mail saraucomcafe@gmail.com até o dia 24 de junho.