segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Lendo e aprendendo









Por Roseli Santos

Pois acreditem, há quem afirme que simples eventos literários não são culturais ou não sejam suficientes para promover a cultura. Fiquei surpresa com tamanha barbaridade. Aprendi com a minha família e com os meus professores a desenvolver o gosto pela leitura, pelos livros e por tudo o que envolve esse mundo fantástico, por mais simples que sejam as ações a ele dedicadas, capaz de abrir todas as portas e todas as possibilidades.

Quem não lê fica alienado culturalmente de muitas coisas, mas quem afirma categoricamente que um simples evento literário não é suficiente para desenvolver o fazer cultural talvez esteja enclausurado em outro tipo de alienação. Uma nova forma de analfabetismo, certamente, capaz de desprezar qualquer iniciativa que promova e desenvolva o gosto pela leitura e, conseqüentemente, seja capaz de formar cidadãos mais felizes e conscientes.

Tenho um exemplo claro e digno (e poderia citar vários promovidos aqui em Taquara, mesmo) de que é possível ser agente de transformação cultural com gestos simples e bem intencionados. O Sarau com Café, ao longo de oito anos, é uma referência cultural de destaque regional e estadual. É através da leitura de textos, da música e da troca de experiências com nossos convidados que conseguimos transformar a realidade de muitas pessoas, despertando o amor pela arte, pela música e pela literatura em locais onde nem sequer imaginávamos que isso seria possível. Esse e outros eventos literários são estímulo para quem ainda não sabe (ou já sabia há mais tempo) que ler é uma grande viagem.

Claro que há outras formas de “viajar” e há quem as prefira em troca de uma vivência real e enriquecedora, como a leitura ou outras atividades culturais. Claro, também, que há quem prefira desdenhar e ironizar o que existe em Taquara e na região por absoluto despeito. Mas esses são exceções, cartas fora do baralho, incapazes de fazer a diferença. Humanamente compreensível.

Mas para quem nos acompanha em nossos encontros, vale lembrar que dia 31 de março o Sarau com Café retorna com novidades e muita cultura, sim, para aqueles que sabem o que é um evento literário de verdade. Chico, Adolfo, Anna, Ilana e eu esperamos por vocês para mais um ano de descobertas, só possíveis aos que sabem viajar literalmente no que os livros, a música e a arte em geral nos oferecem gratuitamente, sem cobrar pelo que está disponível a todos, basta querer aprender e, quem sabe, fazer cultura do seu jeito, sem os velhos paradigmas de quem talvez nem saiba, ainda, a que veio neste mundo.

Até março, pessoal.








terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Na corda bamba

Por Roseli Santos

Ainda que o lado negro do ser humano aflore todos os dias em atos de violência e demais gestos menos nobres em relação a seus semelhantes, sempre é possível testemunhar, em alguns momentos, o altruísmo e a solidariedade. As tragédias e situações de calamidade, especialmente, despertam o instinto coletivo de sobrevivência. Há uma comoção generalizada em casos como os desabamentos e mortes causados pela chuva, recentemente, no Rio de Janeiro, mesmo que a chuva ocupe o seu devido lugar na natureza, desde sempre.

O assunto pode já ter quase se esgotado em toda a imprensa, que logo se preocupará com outros acontecimentos, mas me chamou atenção a preocupação de alguns voluntários e solidários, não só com as pessoas flageladas, mas com os animais, tão vítimas quanto os sobreviventes humanos nessa situação específica.

As cenas exibidas pelas emissoras de televisão, mostrando uma mulher agarrada ao seu cachorro em meio à enchurrada que quase a levou, mostram que ela não abandonou o fiel companheiro nem naquele momento de vida ou morte. Abraçada a ele, ao ser resgatada por moradores com uma corda, lutava heroicamente para salvar a sua vida e a do cão, que acabou sendo levado pela força da correnteza, assustado com a situação desesperadora.

Duas vidas, o mesmo valor, ao menos para aquela mulher e para aqueles que, como eu, não conseguem medir quem vale mais como ser vivo, seja humano ou não. Nesse caso, quem deveria ser salvo? A mulher, dirão praticamente todos os que viram as imagens e os que me lêem agora. Mas a atitude daquela mulher, agarrada ao cão apesar da fúria da correnteza, sem vacilar, comprova que ela e o animal tinham a mesma importância. Uma questão de sorte e da providência dos moradores que agilizaram o socorro para ela, porque o cão não estava nos planos de quem jogou a corda.

A iniciativa de levar o cachorro agarrado ao peito foi da própria mulher. E nem é preciso fazer muito esforço para imaginar a sensação de impotência e de desespero dela diante da força das águas, tendo que deixar o companheiro ir embora para sempre. Quem ama os animais sabe do que eu estou falando. Vidas são vidas, e ponto final.

Quem disse que valemos mais ou menos do que um cão? O argumento da compaixão para mim é o único que faz sentido, seja em relação aos homens ou aos animais. Talvez, no caso dos animais, como este, eu ainda alimente mais compaixão, justamente por se tratar de um ser indefeso, incapaz de poder optar, escolher e de sobreviver sem o seu dono por perto.

E há algumas pessoas por aí, disfarçadas de solidárias, voluntárias e tudo o mais, que, do alto de sua arrogância, ignoram e desprezam seres que julgam inferiores por entender que elas são superiores. Em quê? A propósito, resgato o ditado que diz mais ou menos assim: “Quanto mais conheço os seres humanos,mais admiro os meus cachorros”. Nada pessoal, mas certamente bem oportuno para refletir sobre quem merece ser resgatado pela corda em meio às águas turbulentas.