terça-feira, 10 de agosto de 2010

Nem isso, nem aquilo


Por Roseli Santos

Eu desconfio de gente que está sempre em cima do muro. Gente dissimulada, dessa espécie que é melhor manter distância. Gente morna, nem fria nem quente, nem alegre nem triste, nem direita, nem esquerda, nem isso nem aquilo. Gente que opta pelo caminho do meio, que até pode ser o da virtude, segundo alguns filósofos da antiguidade em reflexões feitas no trecho de uma crônica de Mario Sergio Cortella, que li recentemente. No texto, o filósofo nos abre os olhos para a obviedade e a simplicidade da vida, ainda que muitas vezes precisamos trilhar caminhos mais tortuosos para enxergar e compreender o mundo e a nós mesmos.


E foi justamente o termo “morno” que me despertou o questionamento sobre o que significa ser e estar nesse mundo. Para existir é preciso sair de cima do muro, aquecer a vida, rir ou chorar, tomar posição, seguir um caminho, ter sonhos e objetivos, sejam eles quais forem. Claro que é mais cômodo optar pelo caminho do meio que, nem sempre é virtuoso, no meu entendimento. O meio pode nos levar a lugar nenhum, a nos deixar paralisados por medo, por pânico de justificar a nossa existência por aqui.


A vida de cada um pode não ser exatamente o que se imaginou, o que se quer realmente, o que deveria ser, mas deve corresponder à exatamente aquilo que impomos como verdade para nós mesmos. Nossas atitudes dirão se somos coerentes com aquilo que acreditamos, independentemente dos outros, do que pensam e do que desejam por e para nós. Alguns optarão por ficar eternamente em cima do muro, mornos, sem sal nem açúcar. Zona de conforto é uma saída para quem prefere fincar os pés no chão e não ir a lugar algum, ao menos pelos próximos 30 anos.


Não me refiro a bom senso, prudência, ponderação e outros atributos necessários para tomarmos algumas decisões ao longo da vida. Dissimulação é outra coisa, ou coisa nenhuma. Em tempos de individualismo crônico, estranha que tão poucos têm atitude, personalidade e coragem para ser e dizer. Me parece mais fácil a esses adotar o caminho do meio por uma questão de conveniência, de mediocridade, mesmo, como o próprio nome diz. Meio não é nem início nem fim. É meio, é a parte de cima do muro.


E se a cada um cabe a sua parcela de participação na construção deste mundo em que vivemos, opto por ficar ao lado dos que são quentes ou frios, salgados ou doces, alegres ou tristes, amados ou rejeitados, isso ou aquilo. Nada de meio termo, meia vida. Melhor derrubar o muro e ser o que se é.