quinta-feira, 22 de abril de 2010

Se essa rua fosse minha...

Por Roseli Santos


Se essa rua, se essa rua fosse minha;

eu mandava, eu mandava fechar”.


A paródia da clássica canção da infância de todos nós serve para reflexão em torno do anseio de posse e de propriedade que invade alguns cidadãos desde que o mundo existe. O “ter” sempre foi símbolo de status para aqueles que acreditam e apostam nisso como única maneira de se diferenciar do grupo, da comunidade e de se destacar na aldeia onde vivem.

George Orwell, no livro “A Revolução dos Bichos”, já alertava que todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros diante da hierarquia que o homem mesmo se impõem, oprimindo seus próprios semelhantes, isso sem falar nos animais irracionais, à mercê dos ditos racionais. Essa reflexão me ocorre no momento em que vários acontecimentos locais e nacionais chamam a atenção.

Na aldeia local, há quem queira uma rua só para si e para os seus, como se ainda vivêssemos no tempo das capitanias hereditárias. Se essa rua ou o bairro ou a cidade fosse exclusivamente deles, com certeza já teriam cercado tudo, impedindo o acesso dos “menos iguais” à sua ilha de Caras particular, privativa e isolada do resto do mundo. Aliás, uma boa ideia para quem não quer ou não sabe viver em comunidade.

Mas como todas as vias são públicas e todos os cidadãos pagam impostos e têm o direito de ir e vir, chega a ser hilário imaginar que alguns “mais iguais” queiram determinar o que é ou não de todos, especialmente em se tratando de bens públicos. E aí incluem-se ruas, praças, calçadas, parques, etc.

Na aldeia global, a coisa não é muito diferente. Basta uma oportunidade e lá estão os espertinhos prontos para usurparem o que é de todos, sorrateiramente, na calada da noite, se apropriando do que notoriamente é público e custeado com os impostos de cidadãos contribuintes. São, novamente, os que se acham “mais iguais”, dispostos a ficarem com a fatia maior do bolo. Danem-se os “menos iguais”.

De volta à nossa aldeia local, que completou 124 anos de emancipação dia 17 de abril, procuro resgatar o quanto ainda temos de civilidade, segurança e tranquilidade para compartilharmos deste espaço chamado Taquara com todos os que aqui residem, sejam “mais ou menos iguais”. Até poderia dizer que, se essa cidade fosse minha, eu a dividiria com aqueles que realmente a amam e investem para que ela se desenvolva e ofereça o melhor para seus habitantes.

Na contramão do pensamento individualista que se impõe de tempos em tempos, apenas acrescento que, de alguma maneira, somos todos donos da rua onde moramos, da cidade que escolhemos para viver e de todas as árvores e praças públicas do município. Não precisamos nos apoderar de nenhum bem público para nos sentirmos donos dele, uma vez que já nos pertence. Cuidar de tudo e de todos é obrigação de quem sabe que, para sobreviver, precisa comungar com ideias divergentes, sem perder a noção de coletividade, essencial para a convivência pacífica dos que aqui estão e dos que ainda virão a habitar essa aldeia, sejam “mais ou menos iguais” a você.