segunda-feira, 29 de março de 2010

Se liga

Por Roseli Santos

A moda, agora, entre os adolescentes é usar pulseira. Nada de novo, até porque esse sempre foi um dos adornos preferidos das meninas, principalmente. A diferença, porém, é que usar pulseiras coloridas hoje em dia tem outro significado, acreditem. Cada cor simboliza um desejo, que pode ir de um simples abraço à relação sexual completa.

Basta o garoto chegar e arrebentar a pulseira da menina, ou vice-versa, e concretizar a vontade de beijar, de agarrar, de transar, etc. E não adianta reclamar...as regras são claras. Quem usa a pulseira, já sabe.

A iniciativa já está gerando discussões entre pedagogos, psicólogos e diretores de escolas, mas o fato é que a moda pegou e talvez não seja necessário tanto alarde assim. Afinal, os códigos mudam, mas o jogo da sedução é o mesmo, há anos.

No fundo, a adolescência é o período mais revelador dos nossos anseios. Os sentimentos afloram intensamente e os hormônios estão “bombando”, querendo tudo. Bons tempos em que há só descobertas, não sem alguma angústia e ansiedade, claro. O detalhe é que os adolescentes de hoje falam mais abertamente e precocemente sobre tudo. E, por isso mesmo, deveriam ter mais orientação e acompanhamento dos pais. Falta base para essa galera cheia de informação e vazia de conhecimento.

As pulseiras não me assustam. O que me apavora é a omissão dos pais em ignorar o que ocorre com os filhos (e isso vai desde o sexo até o uso de drogas, como o crack). É mais fácil repassar a responsabilidade para a escola e culpar a internet por tudo o que rola por aí do que educar, realmente. Isso exige tempo, dedicação e muito desgaste. E não me parece que, em alguns casos, o desejo do colocar mais gente no mundo esteja diretamente relacionado à verdadeira missão de ser pai ou mãe.

Os filhos já nascem sendo cuidados por terceiros e os pais atuam como coadjuvantes, responsabilizando mais tarde a sociedade, a escola, os amigos, etc, etc, por tudo o que possa ocorrer a seus rebentos. Sem falso moralismo, educar é outra coisa. E ter filhos apenas para cumprir o dito “papel social” não me parece uma boa ideia, nem para os pais e nem para as crianças que habitarão este planeta.

Portanto, aos que aí já estão, resta se comunicarem do jeito que sabem. Com ou sem pulseiras, são fruto da educação que recebem (ou não) em casa. Como o tempo anda escasso, dedicado exclusivamente ou à subsistência ou à tarefa de ganhar mais e mais dinheiro, é mais fácil transferir responsabilidades e culpas. Muitos pais não sabem das pulseirinhas, nem do que acontece na escola, na rua, na balada, e nem de muita coisa que anda rolando por aí. Se liguem. Está na hora de ficar online por mais tempo, conectados em seus filhos e no que pode acontecer além da novela das oito e dos reality shows.


quinta-feira, 18 de março de 2010

Pão e Circo


Por Roseli Santos

Já dizia a letra da música dos Titãs...”a gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte”, enfatizando a necessidade que todos nós temos de levar uma vida digna e plena, em vários aspectos. Não basta apenas o pão para garantir a sobrevivência. Uma vida sem educação, sem saúde, sem arte, sem lazer e sem alegria não se completa.


Há que se batalhar pelo pão nosso de cada, obrigatoriamente, mas há que se lutar, acima de tudo, por uma existência que valha a pena. Nem todos podem escolher o destino que lhes caberá neste latifúndio, mas os que podem devem ser agentes transformadores, homens de ação, elos de ligação que garantam não só pão, mas circo aos que o cercam.


Não acredito em desenvolvimento humano baseado, exclusivamente, em dados econômicos. Dinheiro garante o conforto e muitas coisas mais, com certeza, mas educação, arte, lazer e diversão dependem, também, de outros fatores. Vontade política, cabeças abertas, gente esclarecida e bem informada, movimentos comunitários e pessoas engajadas com o bem comum podem fazer toda a diferença, muito além do que possamos imaginar.


Há quem se contente com mesa farta, gordas contas bancárias, condomínios e carros luxuosos e uma vida relativamente segura, garantida pela frágil certeza do pão que sustenta o seu corpo e dos bens que pensam possuir. Falsa sensação de proteção, ainda que necessária em seus aspectos básicos a todos os seres humanos, mas que desmorona quando o vazio interior não é preenchido.


Portanto, não esqueçamos de alimentar nossa alma com música, literatura, filmes, cores, teatro, dança e de tudo aquilo que, de alguma maneira, nos torne melhores, mais plenos. O pão nos mantém de pé, mas o coração sucumbe sem a arte.


Digo isso, apenas para lembrar que a primeira edição do Sarau com Café deste ano começa no clima de descontração e alegria do Circo. Esse será o tema do evento que acontecerá dia 25 de março, às 19h30min, no espaço junto à Cafeteria Sabor Café e Livraria Nova Letra, em Taquara.


O convidado especial do encontro é Benhur Pereira, denominado “O Palhaço BEM” e também conhecido como Benhur do Fogo (malabares e acrobata). Ele falará sobre as atividades circenses e demais assuntos relacionados ao tema que encanta todas as gerações. Dia 25 também está prevista a participação do grupo teatral Cheiro de Chuva e de músicos convidados. A entrada é gratuita.


Até lá!






terça-feira, 2 de março de 2010

O médico e o monstro

Por Roseli Santos


Por mais que eu me tente me acostumar com tudo o que vejo por aí, o ser humano ainda me surpreende. Para o bem e para o mal, assim caminha a humanidade, entre esses dois polos. “O médico e o monstro” dentro de cada um, enclausurados para se manifestarem a qualquer momento, em qualquer situação.


É inegável, claro, que a espécie humana evoluiu em alguns aspectos (ciência, tecnologia, medicina, saúde, etc, etc). E regrediu violentamente em outros, como educação, boas maneiras, respeito, compreensão e companheirismo. Coisinhas básicas do dia a dia que foram se perdendo com a dita evolução.


No lugar desses valores, emergiram outros que dão até medo. Barbárie contra mulheres que optam por tentar levar uma vida digna sem a opressão e a violência de maridos que acabam com elas a tiros ou soda cáustica; população enlouquecida e egoísta que rouba seus semelhantes na tragédia em meio ao caos de um terremoto onde todos precisam de ajuda; tiroteio em praça pública para eliminar os “inimigos” de gangues rivais, todos ainda adolescentes.


Que evolução é essa? Os monstros dominando as mentes de seres considerados humanos. Espécie superior, evoluída, que tenta se sobrepor às demais, impondo-se como racional. Monstros desconhecidos e próximos, capazes de qualquer coisa, de qualquer ato em nome sabe-se lá do quê. Alguns, da honra; outros por vingança, revolta, demência, insanidade, crueldade, sadismo e até por motivos tão banais que chega a ser assustador sair de casa, só de pensar.


No outro extremo, atos de solidariedade que emocionam e viram notícia, também, como se o bem fosse algo tão insólito quanto os crimes mais hediondos. Ações despercebidas, na maioria das vezes, e que nem sempre são destaque na mídia por não envolverem grandes projetos humanitários, mas que fazem a diferença na aldeia onde moramos.


Pequenos exemplos do bem que podem surgir a qualquer momento, matando o monstro adormecido em cada ser humano. Para isso, é preciso não alimentá-lo de raiva, de injustiça, de ingratidão, de exclusão e de todas as mazelas do mundo contemporâneo. Basta criá-lo com exemplos altruístas, de amor e solidariedade, de educação e carinho, de respeito e solidariedade para que evolua plenamente.


Sem isso, nos igualamos, ou pior, nos inferiorizamos aos demais seres da natureza. Melhor pensarmos em outro tipo de evolução ou continuaremos na Idade da Pedra, na Idade Média, de onde me parece que ainda há resquícios em nossa mente assombrada com tanta modernidade e tão pouca educação.