quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Desacelerando

Por Roseli Santos


Todo o aparato tecnológico utilizado por nós nas atividades diárias, especialmente no trabalho, deveria nos render, pelos cálculos dos especialistas, muitas horas livres para não fazermos nada ou apenas aquilo que nos seja prazeroso. Mas pergunte aí a qualquer colega seu, neste momento, se ele tem tempo sobrando para um papinho ou um happy hour. Pergunte a você mesmo se tem esse tempo para curtir o final do dia tranquilamente jogando conversa fora em um bar, por exemplo, com seu melhor amigo. A resposta será não! Não sobra tempo.

O dia poderia ter 50 horas só para darmos conta de mais trabalho, mas nunca para relaxar e gozar a vida. Não podemos parar, é necessário dar conta de tudo e mais um pouco; é preciso estar online sempre para não ser esquecido; é urgente ganhar mais dinheiro para comprar mais, ser mais, querer mais. Falta tempo e coragem para desacelerar.

O assunto foi abordado esta semana pela psicanalista Maria Rita kehl, em Porto Alegre, alertando para o fato de que a aceleração constante leva à depressão e, tenho certeza, de que a outras doenças mais graves também. Tudo o que foi inventado para facilitar a nossa vida nos prende cada vez mais a coisas que nos amarram, nos tolhem e nos viciam, se permitirmos, claro. E não é a toa que vejo jovens, muito próximos a mim, dizendo que não conseguem dormir. Só desligam quando é madrugada, horas antes de levantar e ir para a aula. Até então, ficam conectados com outros zumbis que varam as madrugadas no computador para não perder tempo e nem o que está rolando na net.

Depressivos, ansiosos, insones, amedrontados, esses serão os adultos que nos substituirão logo mais por aí. E, ao que tudo indica, terão menos tempo do que nós para fazer tudo e ainda mais; para serem melhores; para consumirem alucinadamente e estar em todos os lugares virtuais simultaneamente. Se possível, online, sempre!

Me peguei assim dia desses, angustiada por querer fazer muito mais do que faço, por querer estar em outros lugares, curtir todos os amigos, ler todos os livros, ver todos filmes que deixei prá trás, etc, etc, etc. A lista é interminável e, lamentavelmente, me dei conta de que assim será para sempre. Impossível querer e ter tudo, sempre haverá coisas a fazer. Ainda que o dia tenha 50 horas, não conseguiremos cumprir as inúmeras tarefas e desejos que nos batem à porta, não poderemos atender e contentar a todos, mas poderemos desacelerar.

Palavra mágica, o próprio nome freia os pensamentos, nos deixa mais lentos....desacelerados. E aos poucos, desacelerando, descobre-se que cada segundo é precioso, cada minuto uma possibilidade, cada hora uma eternidade, se soubermos nos ouvir e contemplar cada coisa a seu tempo. Claro que a lista continuará ali com algumas prioridades inadiáveis, trabalho por esperar e prazeres a serem desfrutados. Sempre haverá coisas inacabadas, desejos não realizados. A lista de cada um de nós ficará depois de nós, apesar de nós. Não tem jeito.

Desacelerar, palavra mágica que muda a vida, salva um cidadão da loucura e o liberta para voar no tempo e não para ver o tempo voar. Não se preocupe, a lista agregará sempre novas necessidades, o mundo continuará girando e a vida segue. Portanto, com licença, preciso parar de escrever para poder aproveitar melhor o tempo que sobra agora para me dar um livro de presente, fazer um jantar para os amigos, namorar mais, olhar aquele filme ou, quem sabe, ir prá casa e não fazer absolutamente nada nas próximas horas. E ainda por cima, sem culpa, tá?


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Salvem suas flores



Por Roseli Santos



A água da enchente destruiu tudo no casebre construído em uma vila da periferia de Porto Alegre. Tragédia anunciada e repetida agora imagens no noticiário de TV, enquanto a câmera percorre o local exibindo cenas já conhecidas dos moradores que, mais uma vez, dão seus relatos de perda, de desolação, de cansaço diante do descaso e da omissão das autoridades.


Uma senhora de olhar distante testemunha mais uma vez o medo e a impotência diante da água e do barro que invadem os cômodos da casa paupérrima todos os anos. “É sempre assim”, diz resignada.

Perdeu a mãe dia desses e agora veio a enchente. E revela a angústia que passou enquanto a água do rio subia, na tentativa de salvar, não algum móvel ou outro bem material, mas as flores vermelhas plantadas em um vaso que a mãe lhe havia presenteado dias antes de morrer.
Em meio ao caos, ela mostra orgulhosa a planta que sobreviveu à enxurrada. Diz que assim lembra da mãe, mantendo as flores por perto.


Os olhos com lágrimas exibem o vaso florido e ela sorri. Um sorriso que contempla terno e triste, ao mesmo tempo, o símbolo amoroso deixado pela mãe antes de morrer e que ganha um significado tão intenso e muito mais importante do que a perda dos poucos bens materiais destruídos pela água.

Sorri porque salvou as flores, numa demonstração de desapego total ao que a enchente destruiu, ainda que pouco tivesse adquirido para sua subsistência no casebre. Sorri exibindo a planta como um troféu diante do infortúnio e da fúria da natureza.

Ao me deter fixamente no rosto daquela mulher, marcado por rugas profundas, vi transparecer nos olhos azuis ou verdes uma beleza indescritível; transbordar um amor incondicional intenso, capaz de suportar qualquer dor, qualquer perda, ainda que a da própria mãe.

E ela sorri, transcendendo os problemas imediatos causados pela fatalidade, ignorando qualquer futilidade, rendendo-se à fragilidade humana, certa no seu simplório e ao mesmo tempo profundo e filosófico pensamento, de que apenas o amor pode sobreviver a tudo.

Antes que o tempo nos leve, também, aprendamos nós com essa senhora a salvar nossas flores. E são tantas, com certeza, que muitas vezes as esquecemos abandonadas no jardim da vida, enquanto estamos preocupados em salvar outras coisas sem qualquer valor e que poderão nos ser arrancadas a qualquer momento, assim como as flores do nosso jardim.