segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Deixem-os voar









Por Roseli Santos


As pessoas e suas histórias sempre me interessaram. Por força da profissão e por hábito de vida, aprendi a ver observando além das aparências. Algumas coisas me envolvem, outras me emocionam profundamente e de outras eu me afasto, deliberadamente. Ainda assim, no balanço que faço de mim mesma, tenho agregado muito mais do que repelido, amado muito mais do que ignorado, sentido intensamente.

Há seis anos, especificamente, o Sarau com Café me traz novas e fascinantes experiências de vida, de troca, de interação, de amor e de amizade. Cada encontro é único, sem o menor exagero. Cada sarau uma festa, cada convidado uma alegria. E cada última quinta-feira do mês, uma bela surpresa.

Na semana passada não podia ser diferente. Jovens com idade entre 12 e 20 anos fizeram do sarau um momento muito especial, mostrando seu talento na arte, na música e na literatura. Que alívio testemunhar que nem tudo está perdido enquanto tivermos por perto o sonho e a fantasia brotando em corações tão cheios de entusiasmo.

Senhores, acreditem!! Há vida além da tela de um computador, há criatividade prestes a transbordar, há música nas veias, há arte no DNA desses pequenos talentos à espera de um espaço para exibir o que têm de melhor.

Cada um com suas habilidades. Alguns em sua primeira aparição pública; outros acostumados com aplausos e luzes; e outros ainda inseguros quanto à reação do grande público que lotou o espaço do Sarau com Café para prestigiá-los. Mas nenhum deles indiferente, empenhados que estavam em mostrar a sua melhor performance.

E foi justamente o empenho, a dedicação, a euforia e, principalmente, o entusiasmo dessa galera que me emocionou mais do que qualquer outra coisa. Eles resgataram em mim, e talvez na maioria das pessoas ali presentes, o desejo, a crença e a fé de que é possível fazer o que se gosta. Nem todos terão a música ou o teatro como profissão, mas sonham com isso. Aí está a grande diferença...o sonho que esquecemos, os desejos que ignoramos, as ambições que abandonamos, o quanto abdicamos de nós mesmos ao longo dos anos, consumidos em compromissos inadiáveis, em frustrações profissionais, em horas permutadas por dinheiro, em tempo perdido atrás de estabilidade, de nada.

Senhores, acreditem! Nem tudo está perdido. Há vida logo ali na esquina, nos olhos e no sorriso daqueles jovens, desde que lhes abram uma janela, lhes apontem um caminho, uma oportunidade. Mas jamais roubem seus sonhos. Senhores, não cortem suas asas, deixem-os voar!!





segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Com que roupa?

Por Roseli Santos


Alguns políticos, na falta de algo mais interessante para fazer, ficam inventando “moda”, literalmente. Pois um vereador de Porto Alegre (e nem vou citar nome e partido por motivos óbvios) resolveu implicar com as roupas usadas por duas colegas do Legislativo. Me chamou a atenção o fato dele se sentir ofendido, ou sei lá o quê, por uma das vereadoras usar tênis e outra camiseta com jeans durante as sessões.

Indignado, sugeriu que as mulheres devem estar vestidas adequadamente em Plenário, com terninho, salto alto, camisa, enfim, passeio completo. Pode até ser que fique mais elegante, vá lá! Mas, sinceramente, faz alguma diferença? Se elas estivessem de minissaia, decotes ousados ou vestidos transparentes talvez se justificasse o mal estar sentido pelo cidadão. Ou, ao contrário, talvez ele nem reclamasse.

Mas a futilidade da observação, o protesto contra as colegas por estarem vestindo camisetas ou jeans, não me parece algo coerente, tendo em vista os freqüentes escândalos que rondam nossa classe política, ultimamente, em todas as esferas. Não seria mais sensato discutir temas de interesse público, soluções para os problemas da comunidade, se preocupar com a ética e os trabalhos legislativos, ao invés de ficar avacalhando com a roupa das mulheres, enquanto eles vestem terno e gravata?

Terninho muda alguma coisa se a pessoa não desempenhar bem o cargo para qual foi eleita? Salto alto termina com a corrupção que existe neste país? Os crimes que mais atentam contra a nossa integridade como cidadãos que pagam religiosamente seus impostos não são os assim chamados de “colarinho branco”?

Sem qualquer julgamento quanto à reputação ou ao desempenho dos vereadores, neste caso, o que questiono é se essa é, realmente, uma “questão de ordem” fundamental para o bom andamento dos trabalhos da Casa. Internamente, quem sabe, poderiam flexibilizar o tipo de vestuário que cada um queira usar, sem exageros, claro, o que seria de bom senso. Obviamente, nenhuma dessas mulheres trabalharia de top e minissaia, assim como os homens não iriam de bermuda ao Plenário.

Com que direito, porém, alguém determina o quê você vai vestir? Cada um tem seu próprio estilo, e até pode obter dicas de algum profissional da área, se achar conveniente e necessário, dependendo da ocasião. O modo de vestir está intrínseco à personalidade de cada um, ainda que fora dos “ditos” padrões da moda ou do olhar mais crítico, como o do vereador em questão.

De qualquer maneira, não me parece que camiseta, jeans e tênis tenham interferido na votação que elegeu as colegas vereadoras, hoje ocupando seus cargos e desempenhando, espera-se, dignamente suas funções legislativas. Aliás, talvez o que falte mesmo é um olhar menos superficial, como este do ilustríssimo vereador, para que a política e seus membros deixem de ser aparência e passem a servir realmente a que se propõem, que é o bem estar de todos os brasileiros.



quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Cartas, e-mails, scraps ou tweets?

Por Roseli Santos


Meus e-mails são verdadeiras cartas. Não adianta. Com raras exceções, escrevo tudo sem engolir, abreviar ou inventar novos vocábulos. Sou analógica ao extremo nesse aspecto, embora esteja me adaptando a dizer tudo com menos caracteres em scraps no Orkut, msn e no próprio correio eletrônico.

O meu mais novo e grande desafio, agora, é o Twitter. A febre do momento na internet é um fenômeno de mídia social, tipo chat, que ganha milhares de seguidores todos os dias. Eu, que me enchi de coragem para criar um blog apenas este ano, acabo de ficar obsoleta com o tal do Twitter e tenho que me render a mais esta novidade online para me comunicar com os meus leitores, amigos e parceiros fieis do Sarau com Café.

Até aí tudo bem. Claro que é necessário acompanhar as inovações tecnológicas na área da comunicação, estar atualizado com as novas mídias, divulgar ao máximo as nossas atividades para o maior número de pessoas, etc, etc, etc. Até para não ficarmos totalmente offline e defasados. Mas o Twitter me impõe um desafio dolorido. É preciso dizer tudo em 140 caracteres, pode? Como dizer “tudo” em 140 caracteres? Logo eu, acostumada a escrever longos e-mails, verdadeiras cartas; a narrar crônicas e a publicar contos e artigos que nunca somam menos de 2.000 caracteres, aproximadamente.

Confesso uma admiração secreta por quem consegue dizer tudo em poucas palavras, um exercício que pretendo aprimorar, quem sabe com essa nova oportunidade. Há os que conseguem dizer tudo, também, apenas com um olhar, mas aí é outro papo. Acontece que, apesar das inúmeras bobagens postadas no Twitter diariamente, tenho lido coisas interessantíssimas escritas em míseros 140 caracteres. Morro de inveja e de admiração pelo Carpinejar, escritor e poeta, que todos os dias me surpreende no Twitter com emocionantes reflexões de vida, de amor, de tudo, com aquelas poucas e precisas palavras digitadas ali.

Como jornalista, sempre preferi matérias e textos mais longos, reportagens maiores, aprofundadas, o que era, frequentemente, uma dificuldade com a falta de espaço. Quando o editor cortava alguma parte da matéria, amputava uma parte de mim junto. Trabalhar em rádio me ajudou um pouco a dizer apenas o necessário em uma notícia. Sempre com alguma dificuldade e com a sensação de que ainda precisava dar mais informação aos ouvintes.

Não discordo dessa nova maneira de dizer tudo tão rapidamente pela internet. Há o lado prático, obviamente, como o tempo que nos é poupado em ler grandes asneiras. O meu único questionamento é saber se não estamos nos tornando tão superficiais, fúteis e imediatistas, a ponto de não termos, realmente, nada a dizer. Não estaríamos alimentando, também, uma geração de “não leitores”, quase analfabetos, incapazes de compreender raciocínios mais complexos, com mais de 140 caracteres?

Na dúvida, escrevo mais esta crônica para não me perder de mim mesma e manter o blog que me salva dos lacônicos “tweets” e me permite ser prolixa, sem culpa. De qualquer maneira, tá dado o recado lá também. Acessem http://twitter.com/saraucomcafe. Novos tempos, queridos amigos. E paro por aqui, nos 2.659 caracteres (sem os espaços) antes que me crucifiquem.