quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Bem na foto

Por Roseli Santos


O registro fotográfico sempre foi, e sempre será, uma das maneiras mais fiéis de preservarmos a memória dos acontecimentos. Hoje, mais do que nunca, a captação de imagens se popularizou, tanto pelas facilidades oferecidas para a compra de uma câmera, por exemplo, quanto pelo processo de divulgação imediata do que é registrado.

Claro que isso é fantástico, mas tenho observado que já não se “olha” mais verdadeiramente para as coisas antes de registrá-las, seja na memória ou em fotografia. As pessoas simplesmente saem fotografando tudo, indiscriminadamente, e se esquecem literalmente de “ver” o que está acontecendo por medo de perder a imagem. Já repararam nisso?

Basta uma apresentação do filho na escola e os pais simplesmente saem histéricos espocando o flash para todos os lados na expectativa de reter tudo o que está acontecendo. Esquecem, no entanto, da coisa mais preciosa naquele instante que seria, talvez, olhar nos olhos daquela criança que procura afoita para ver a reação dos pais diante da sua performance, e que está pouco se importando, naquele momento, se sairá bem na foto.

Novos e tristes tempos, me parece, em que “olhar” não significa necessariamente ver; em que “estar” já não importa tanto quanto comprovar a presença em imagem; em que vale mais um registro digital do que uma emoção verdadeira. Obviamente que a fotografia ajuda a congelar lindos momentos, mas precisa esse exagero? Não seria melhor uma pausa antes de dispararmos os flashes, como fazíamos com as câmeras analógicas, pensando um pouco antes de enquadrar, de focar, de fotografar, para retermos apenas o essencial, o instante mágico que ficará para a posteridade?

A rapidez com que se quer tudo, imediatamente, atropela o melhor da vida, encurta a caminhada, amarela as fotos antes do tempo. Melhor seria curtirmos o trajeto mais lentamente, olhando, observando e revelando calmamente cada momento, como se fazia nos antigos laboratórios fotográficos, com o papel mergulhado em bacias de produtos químicos, antes de se tornarem fotografia. Quando a gente menos esperava, em segundos, surgia a imagem grafada em luz na folha branca, descortinando surpresas e a beleza de um fato único que não se repetirá, como a nossa passagem por aqui.




terça-feira, 18 de agosto de 2009

A música de Roberto Carlos

Por Clair Wilhelms




Em tempos de shows e homenagens ao “rei” Roberto Carlos, aí está um texto escrito pela professora e colega colaboradora da Academia Lítero-Cultural Taquarense, Clair Wilhelms. Confesso que não sou fã dele, mas reconheço o seu lugar de destaque na música brasileira, assim como recordo ( e quem não lembra?) da letra e a melodia de algumas canções destacadas por Clair logo abaixo. Aos fãs, então, boa leitura:





"O cantor e compositor Roberto Carlos está completando cinquenta anos de carreira criando músicas diversificadas para os mais variados gostos e fazendo sucesso por onde quer que passe. Isso não é por acaso.

Às vezes, vivemos situações que nos marcam profundamente. Algumas são de alegria, outras de tristeza, mas sempre deixam marcas. Normalmente, para relembrá-las, as relacionamos a um lugar ou, como um grande número de pessoas, a uma canção.

A música mexe com nossos sentimentos e atitudes. Também nos faz chorar, sorrir, gritar, dançar, cantar, falar. Poderia enumerar centenas de verbos e mesmo assim não definiria todas as ações ou estados que a música pode provocar em nossas vidas.

Assistindo a alguns programas da TV no decorrer das últimas semanas, onde houve inúmeras homenagens ao “Rei Roberto”, deu para perceber uma coisa: por mais que o tempo passe, ficaram as canções. Muitas jamais morrerão, pois ainda hoje provocam uma espécie de “frenesi” no público, “uma força estranha”, quando interpretadas pelo autor ou por quem quer que seja.

Quem nunca cantarolou uma canção do Roberto? Olha, fazendo um desabafo é bom lembrar que a música traz tantas emoções, tantos detalhes. Ouvindo-a num café da manhã ou numa cavalgada, seja acompanhado de uma mulher de 40 ou mesmo de Nossa Senhora. Sei lá, só sei que eu daria minha vida para saber como vai você e poder dizer, outra vez, de que vale tudo isso se não posso te dar o céu e que só vou gostar de quem gosta de mim. Lembro ainda todas as canções que você fez pra mim e de todas as vezes em que eu disse: te amo, te amo, te amo.

Falando sério, a distância não importa. Só sei que ela é a mulher da minha vida. Até podem dizer que sou amante à moda antiga, mas custe o que custar, esqueça, pois além do horizonte vou buscar a deusa da minha vida, mesmo tendo que subir a mais alta montanha e derrapar nas estradas de Santos. Mesmo assim, tenho fé que conseguirei, pois eu amo demais.

Quando vejo as flores do jardim da nossa casa, nem penso na palavra adeus. Mesmo se disse adeus, só sei que quero que tudo o mais vá para o inferno, pois tudo isso aqui é meu, é meu, é meu e fico uma fera ferida quando dizem que tenho ciúmes de você. A única coisa que eu sei, realmente, é de como é grande o meu amor por você e que só você, minha amada amante, faz o mundo de nós dois.

Espero o final de semana. Está previsto que quando as crianças saírem de férias poderemos fazer uma festa de arromba e não vai ser preciso chamar sua atenção. Você não vai deixar alguém a te esperar e se pretende saber quem eu sou eu poderei lhe dizer: sou aquele que quer que você seja só minha mulher. Não quero mais ver você triste e nem vamos deixar que o amor se vá, eu só vou se você for. Este é o Roberto, suas músicas, enfim...

Muitos poderão dizer: querem acabar comigo, mas depois de tudo isso, penso que temos que nos render e declarar honras a quem consegue por tanto tempo fazer sucesso e também ser fiel a um número incalculável de fãs. Com certeza não é por acaso que o “Rei” se mantém neste patamar no mundo da música.

Como fã, fico feliz por ter podido acompanhar esta trajetória musical e por que não dizer, literária, já que entre as músicas do Roberto Carlos, há canções que são verdadeiras obras poéticas".








sábado, 8 de agosto de 2009

Pais e filhos



Por Roseli Santos


Era um hábito na minha infância sentar sobre o encosto do sofá e esperar por ele, à noite, após o jantar. Pacientemente, ele concordava em deixar eu acariciar os seus cabelos, brincar de “fazer penteado”. E eu me divertia com grampos, pentes e escovas que alisavam os poucos cachos, suavemente, entre risos ingênuos, num raro momento de toque e carinho, que nunca ultrapassava mais do que isso, mas que significa a imensidão do meu amor.


Meu pai, ali, sentado no sofá e eu alisando seus cabelos, demonstrando, da única maneira que sabia, o meu imenso carinho e minha intensa admiração por ele. Um pai que se deixa acariciar por uma filha ao chegar do trabalho, relaxando ao final de um dia intenso de trabalho, quase um poema, hoje transformado em uma das minhas mais lindas lembranças da infância com ele.


Essa era a recompensa maior. Uma brincadeira de menina, que ele encarava com a maior naturalidade. Se deixar pentear e ser “arrumado” do meu jeito, com grampinhos e tudo o mais, para rirmos juntos, depois, de tudo aquilo. Talvez esse seja o momento mais sublime do meu amor por ele, brincar, alisar, escovar os seus cabelos.


Hoje, ao encontrar a foto da minha sobrinha (esta doçura da foto, que hoje tem 18 anos) lembrei dele tão intensamente, não somente pelo amor que ele tinha por ela. Olhei a foto e o vi ali, presente, brincando na areia da praia com ela, preocupado com o sol, com os perigos do mar, com a areia, com a alimentação, enfim, com tudo o que pode e deve um avô se preocupar.


Mas foi um detalhe que o fez mais presente do que as lembranças. Sob a cadeira, um par de chinelos repousa junto aos brinquedos da neta. Lembrei imediatamente dele caminhando na areia, lembrei daquele chinelo, exatamente, do jeito dele deixa-lo ali, enquanto circulava pela praia com a minha mãe ou ia banhar-se, lembre também, acreditem, dos seus cabelos e dos “penteados” que eu fazia quando criança. Uma foto, uma par de chinelos e um mundo de poesia transbordou em mim às vésperas do Dia dos Pais.


Então, aí vai a minha homenagem póstuma a ele, através desta foto, que diz tanto que eu não consigo expressar em palavras. Sinto apenas os fios dos cabelos desalinhados em minhas mãos, tentando pentea-lo do meu jeito para que ficasse sempre “mais bonito” na minha memória de criança, recuperada em uma foto perdida, tantos anos depois, a quem dedico agora, simbolicamente, a todos os pais.






domingo, 2 de agosto de 2009

Dos amigos, do sarau e da vida


Por Roseli Santos


Sei viver sem muitas coisas. Posso abrir mão de jóias, de carro zero ou de carro usado (não faz a menor diferença), de roupas de marca ou sem marca (também não importa), de botox, de cirurgia plástica, de status, de futilidades, de uma infinidade de bobagens, incluindo-se aí certas pessoas que não me dizem absolutamente nada. Sei e posso viver sem frescura, sem pose, sem dissimulação. Não preciso disso para ser. Sou, simplesmente.


Plagiando comentário feito por alguém um dia desses, quanto mais me relaciono e conheço uma infinidade de pessoas, mais admiro os meus cães. O que não está totalmente fora de cogitação, embora eu saiba que viver sem algumas coisas não pressupõe abrir mão de amigos verdadeiros. E desses, eu não abdico.


Sei viver sem muitas coisas. Posso abrir mão de viagens, de restaurantes, de festas e de bens materiais, mas não posso abrir mão de meus verdadeiros amigos. Jamais! Eles me sustentam, me suportam, me criticam, me transformam e me fortalecem. Me enriquecem, verdadeiramente.


E diante da impermanência de tudo, são eles e seu imenso amor o que realmente importa. Mais do que a própria família, os amigos são afetos gratuitos, vínculos que se formam sem obrigação, sem DNA, sem herança, sem interesses, sem testamento, sem garantia, como tudo na vida. São elos que permanecem, ainda que distantes; ombro para chorar, colo para as horas mais difíceis, alegria incontida que explode a cada reencontro.


Os nossos saraus comprovam. Mais do que referência cultural, tornaram-se um ponto de encontro, de reencontro, momentos de pura magia, de amizade e de muita emoção. E só por isso a vida já valeria à pena. Só pelo fato de agregarmos tantos amigos, tantas parcerias e tanto carinho, já se justificaria cada momento, como o vivenciado na última sexta-feira, dia 31 de julho, no Liverpool Pub, quando comemoramos seis anos de sarau. É sempre uma festa, um acontecimento, um instante único, incapaz de se repetir, capaz de nos tornar ainda mais unidos.


União reforçada com a presença dos músicos do Sarau Beatles e de outros convidados, que mais uma vez nos levaram a uma viagem fantástica no tempo, comprovando, também, não ser possível viver sem música, sem poesia. Lindo testemunhar a presença de tantos amigos dispostos a deixar a TV de lado e sair de casa, em noite fria e chuvosa, para festejar o melhor da vida.


E o melhor da vida não se compra em shopping center ou em supermercado. O melhor da vida está dentro de cada um, em cada momento compartilhado com aqueles que realmente importam, em cada verdadeiro amigo conquistado, em cada sorriso que surge quando se faz o que se gosta, na alegria dividida, na pintura que nos desconcerta, no personagem que nos faz rir, no poema que emociona e na canção que eterniza tudo isso. O resto, não faz a menor diferença. Dá para abrir mão, sem problema.