quinta-feira, 23 de julho de 2009

Anestesiados

Por Roseli Santos



Já vi e ouvi algumas coisas absurdas nesta vida e sei o quanto os seres humanos são vulneráveis diante do sofrimento e das adversidades. Mas até agora não consigo assimilar a informação de que Michael Jackson tomava anestésicos para dormir. Não por ser o ídolo que era (e eu nem sou fã dele). O que me chocou foi o fato de saber que uma pessoa precisa se anestesiar para viver, ou melhor, para dormir e esquecer suas vivências. Que dor carregava essa criatura, tão insuportável a ponto de precisar “apagar”, literalmente, e deletar sua existência, ainda que por algumas horas? Que pensamentos lhe devoravam a mente? Que fantasmas lhe assombravam até a morte?


Mesmo sabendo da história, da infância, da vida, das angústias e das torturas existenciais do cantor, além das excentricidades que marcaram sua trajetória pessoal e profissional, me chocou e me entristeceu profundamente saber que um ser humano precisa mais do que calmantes, de antidepressivos, de terapia, de álcool ou, sei lá, de qualquer outra droga para sobreviver às suas angústias emocionais. Mickael Jackson precisava de muito mais, além da fama, do dinheiro e do assédio que poderia envaidecer e fazer a felicidade de qualquer um. Ele se entorpecia com anestesia, na falta de outros elementos afetivos que pudessem tornar sua vida mais significativa, menos deprimente, menos infeliz.


Concordo que há momentos em que, realmente, pensamos em alternativas para fugir das dores que a vida nos impõe, sejam elas físicas ou mentais. Quantos, muitas vezes, não pensaram em desistir, antes de tentar; em parar, antes de caminhar; em morrer de sede em frente ao mar, diria o músico Djavan.


A história dos que desistem não é contada até o fim. Será sempre incompleta, ainda que possamos reconstituir alguns momentos, juntar fragmentos, querer outro final. Eles desistem, simplesmente, de muitas maneiras. Nem sempre a morte é a saída. Há outros meios de desistir, como se drogar, se embriagar ou se anestesiar, seja lá de que jeito for. Fugir da vida é fugir de si mesmo e do que se é, com todas as dores e as delícias que possam surgir a cada dia.


Acontece que nem todos conseguem carregar o ônus da sua existência sem anestesia. Nem todos passam por aqui suave e impunemente, ainda que tenham talento, prestígio, dinheiro, fama, sucesso e uma obra grandiosa para a posteridade. E aí estão os grandes ídolos que se foram no auge da carreira para provar que nem sempre é possível suportar a dor e a solidão que os acompanham e os ceifam da vida, alheias à multidão que os reverencia e os ama, enquanto os fantasmas e os medos sobrevivem a tudo e a todos.






quarta-feira, 8 de julho de 2009

Aulinha básica

Por Roseli Santos

Respeitar algumas regras básicas de civilidade é o mínimo que se espera de quem vive em comunidade. Curiosamente, há cidadãos e cidadãos, independentemente de classe social. Para alguns, simplesmente vale a sua vontade, em flagrante ignorância daquilo que não lhes interessa.


Tenho testemunhado freqüentemente, nos últimos meses, a falta de respeito de alguns motoristas que circulam nas imediações do prédio onde moro. A rua, sem saída, é literalmente invadida por carros e caminhões que, ignorando as leis de trânsito, estacionam no meio da rua e bloqueiam estacionamento e garagens. E parece que não adianta explicar que aquilo ali é uma rua, porque os motoristas se ofendem com a abordagem e, se bobear, te “metem a boca”, como se justificassem de qualquer maneira a infração cometida.


Chego à conclusão, observando exemplos simples como este, de que o Brasil é mesmo uma farra. Se uma simples lei de trânsito não é observada por motoristas de uma cidade de interior, não é difícil imaginar o que vem acontecendo em todas as esferas políticas ou não. Está aí o Senado para comprovar que tudo é possível.


Mas já dizia o jornalista Cláudio Abramo que a ética é do cidadão. Portanto, cabe a cada um agir de acordo com seus princípios, embora, de um modo geral, o que se vê são atitudes cada vez mais anti-éticas, seja na escola, nas empresas, na política, nas relações pessoais. O vale tudo do Senado se aplica também a pequenos atos cotidianos. Basta olhar para o lado.


Se levar vantagem em tudo continua sendo um péssimo diferencial da sociedade atual, então vai complicar ainda mais. Nada pessimista até aqui, apenas a constatação do óbvio. Preparem-se, porque o pior ainda está por vir. Uma geração educada de forma tão individualista pode gerar futuros cidadãos ainda mais corruptos, mais gananciosos, menos humanos, menos gente.


Uma frase que circulava na internet dia desses questionava algo assim: - Não pergunte que planeta deixará para seus filhos, mas que filhos deixará para o planeta”. É por aí que se transforma uma comunidade, um estado, um país, o mundo. Os que virão dirão por nós.