sexta-feira, 26 de junho de 2009

Pipocando


Estar em comunidade é um prazer e uma alegria. O Sarau com Café junino realizado ontem, dia 25 de junho, nos envolveu mais uma vez em ritmos, histórias, teatro, informações e curiosidades. Desta vez, interagimos com as modas de viola de Flávio e Dariu; com a colaboração muito especial de Clair Wilhelms, nos blocos de leitura; do grupo teatral Cheiro de Chuva; e da pianista Luisa Strelow Rocha. Confraternizamos com pipoca, quentão, rapadura e, principalmente, com a calorosa companhia de todos os amigos que lá estiveram, apesar da noite fria.


Ainda dentro do espírito de São João, reproduzo aqui um texto do psicanalista e educador Rubem Alves, lido pela psicóloga Anna Amélia Fleck, que fala metaforicamente sobre a pipoca e sobre nós, indistintamente:


“É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assom
brosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar po
bre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a po
bre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro”

"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.




terça-feira, 23 de junho de 2009

Era noite de São João



Por Roseli Santos


Festa de São João “de verdade”, na minha adolescência, era a do “Polivalente”. Nada se comparava ao tradicional evento junino que reunia gente de toda a cidade na escola para um encontro de muita diversão e alegria. Além das comidas e bebidas típicas, como pinhão, quentão, amendoim e pipoca, a “Festa do Poli” exigia traje caipira e bigode de carvão para os meninos e pintinhas nas bochechas das meninas. Também não faltava a cômica encenação do Casamento na Roça e a temível Cadeia.


Lembram da Cadeia? Os guris mandavam prender as gurias e vice-versa, numa brincadeira engraçada que rendia, até, alguns ingênuos beijinhos caipiras depois de libertados ou cara feia por vários dias. Já a cantina era o recanto para exagerar na comilança e beber quentão para espantar o frio. E me parece que os invernos daquela época também eram mais intensos, mais gelados. Saía de casa (morava praticamente ao lado da escola) com muita roupa, acompanhada de amigos, abraçada ao namorado também adolescente... e até o namoro, me parece hoje, tinha outra intensidade.


Tão intenso quanto o acontecimento mais esperado da noite: a queima da grande fogueira montada nos fundos da escola. No pátio, todos aguardavam pelo momento em que as chamas tomassem conta e o clarão iluminasse a escuridão. Pura magia ser aquecido ao relento pelo calor das labaredas, mantida a segura distância para evitar acidentes.


A fogueira queimava até o outro dia e era motivo de orgulho para alunos, professores e visitantes. Bons tempos, aliás, em que os estudantes tinham orgulho e respeitavam sua escola, seus mestres. Amávamos o “Poli” e os professores eram referenciais tão importantes que, até hoje, muitos deles continuam na minha memória e no meu coração como lembranças da melhor fase da adolescência.


Na semana passada reencontrei dois professores inesquecíveis daquele período, a Cátia e o Weber, o que certamente me reavivou a memória das festas e de tudo o mais que ocorria naquela época em que freqüentávamos o, assim chamado, primeiro grau. Foram anos de muito aprendizado em uma escola pública, sim senhor , onde recebi a principal bagagem para saber que caminho seguir a partir dali.


Não sei muito da realidade da escola hoje em dia e nem tenho conhecimento se ainda ocorrem as tradicionais festas de São João. Mas se tiver fogueira, por favor me chamem!!


E por falar em São João, nesta quinta-feira, dia 25 de maio, tem Sarau com Café Junino, às 19h30min, no espaço da Cafeteria Sabor Café e Livraria Nova Letra, em Taquara. Não vai ter fogueira, mas muita moda de viola com Flávio Ramos e Dariu, com o músico Amendoim e teatro com o grupo Cheiro de Chuva, além de mim, da Anna Amélia Fleck e da Clair Wilhelms, nos blocos de leitura, intercalados com pipoca e quentão. Todo mundo lá!





quinta-feira, 11 de junho de 2009

Música para viver

Por Roseli Santos


A música se basta em acordes, sons, melodia, harmonia, ritmo e poesia. Os instrumentos em sintonia, a voz que transborda emoção, o equilíbrio, a perfeição. Poucos momentos são tão sublimes quando aos instantes em que silenciamos diante de uma canção. Qualquer música que nos encante transforma-se em oração, em benção, em encantamento.

Saber ouvir é uma dádiva, um prazer raramente cultivado nos dias de hoje. Calar e deixar a música entrar na alma, aquietar a mente e o corpo, ou deixar-se embalar pelo ritmo que envolve e alucina. Sons que mexem com o que temos de melhor, letras que nos comovem e nos desconcertam, melodia que entra e fica no coração para sempre.

Decore a letra de uma música e nunca mais esquecerá. Basta ouvir os primeiros acordes e pronto! Lá embarcamos nós em mais uma viagem, em sonhos, em lembranças, em imagens que se petrificam na memória, independente do tempo.

Meus amigos músicos me completam e mal sabem eles o quanto são fundamentais na minha vida. Ouvir o que se gosta é pura magia, êxtase, satisfação plena, alegria intensa. Momentos únicos compartilhados entre sons que nos unem, ainda que nunca tenhamos tocado um instrumento.

Esta sensação, sempre poderosa em qualquer show, foi reforçada no dia 6 de junho quando os músicos Tiago e Marcelo, do Sarau Beatles de Porto Alegre, nos transportaram, literalmente, para uma viagem fantástica no Liverpool Pub, em Três Coroas. O local, privilegiado em tudo, não poderia ser mais apropriado para o encontro com a banda e com amigos tão especiais.

Embalados pelas canções e pela história dos Beatles, ficamos ali, ouvindo, cantando com alegria e emoção os sucessos dos Garotos de Liverpool, resgatando uma época que a maioria de nós nem viveu completamente. Muitos nem eram nascidos ou ainda eram muito jovens para saber o impacto que aqueles caras iriam causar.

Ainda assim, os Beatles nos fascinam na voz de músicos que reproduzem tão fielmente suas canções que, por alguns momentos, nos sentimos, verdadeiramente, ali, com eles, gritando, chorando, cantando. Momentos como este podem se repetir quando pessoas empreendedoras e culturalmente dispostas apostam na região, sem pensar única e exclusivamente no lucro.

Prazer e alegria não se compram. Podem ser ofertados, compartilhados, estimulados por quem sabe o valor inestimável das coisas que realmente importam. E a música é alegria, prazer e contentamento gratuitos, ainda que se pague por um show. O ingresso nos habilita a muito mais do que o mero acesso a um espetáculo. Nos proporciona momentos de felicidade que só a arte pode oferecer. E aí está a música para provar que a gente não quer só comida. Precisamos disso e muito mais para nos sustentarmos como cidadãos, com direito à plenitude da vida e à infinidade de significados que ela pode ter, além do óbvio.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Big Bang





Por Roseli Santos


O universo, por ser vasto e infinito, nos envolve em mistérios. Quando reduzido ao que nos é mais próximo ou de nosso conhecimento, torna-se um mundo mais palpável, menos assustador. Quando nos propomos a discutir o universo feminino como tema no último sarau não sabíamos ao certo por onde começar e nem aonde aquilo ia terminar.

E a beleza do encontro foi justamente o entrosamento e a enriquecedora troca de ideias entre as convidadas Érica Ostrowski, Fabiana Torres, Inge Dienstmann e Maria Salete Sampaio Hahn. O universo pessoal e profissional de cada uma pode ser compartilhado com o público, entre textos e músicas, entre riso e emoção, entre lembranças e desabafos.


Por isso, acredito que a palavra universo realmente se enquadre na infinidade de possibilidades, de tarefas, de atividades, de afazeres, de dupla jornada e infinitos papéis que as mulheres desempenham hoje, nem sempre com o devido respeito e reconhecimento. É delas a responsabilidade de arcar com a multiplicidade de coisas, muitas vezes além de sua capacidade física e emocional. E é das mulheres, também, o desafio de questionar seu papel e o caminho que seguem, sempre com a possibilidade de voltar atrás e jogar tudo para o alto. Por que não?


Sem limites, o universo feminino está sempre em expansão, em constante movimento, em permanente busca, em rotação, transmutação. Seres em simbiose com o cosmos, em rota de colisão, dispersos em partículas que podem se desagregar a qualquer momento ou explodir em realizações, em alegria, em satisfação em beleza de mulher.


A dita e almejada igualdade com o sexo masculino, tão apregoada por algumas mulheres, se esvai em diferenças que insistem em aflorar, marcantes, fundamentais para mantermos a nossa identidade, sem nos transformamos em outra coisa, senão nós mesmas. Únicas, femininas, vaidosas, iguais nos desejos, nos anseios, na ambição, na luta pela sobrevivência, no esforço para criar os filhos, no desempenho profissional. Mas diferentes dos homens na essência delicada da alma, na fragilidade que transparece quando menos se espera e na emoção de ver o mundo como mulher. Um senhor universo sempre em expansão até que exploda em um novo Big Bang, capaz de se recriar infinitamente.