sexta-feira, 24 de abril de 2009

Na Estação

Por Roseli Santos

Uma estação rodoviária sempre foi e sempre será abrigo de muitas vidas. Sorrisos na chegada, lágrimas na despedida. Leva esperança, traz alegrias, despacha tristezas, embarca viagens e sonhos, transporta emoções, carrega possibilidade de encontros e encurta distâncias.

Observo o movimento da rodoviária em Taquara, como há muito tempo não fazia, e descubro que logo este fluxo intenso pulsando no coração da cidade migrará para outro lugar. O que não é uma ação de todo ruim, dependendo do ponto de vista, já que desafogará as ruas centrais do intenso tráfego pesado dos ônibus. Ainda assim, não consigo imaginar as imediações da Praça da Bandeira sem o corre-corre diário. Por ali transitam centenas de pessoas por dia, há anos. E não há um taquarense sequer que não tenha utilizado (em algum ou em muitos momentos da sua vida) o transporte coletivo em direção ao trabalho, à faculdade, para visitar um parente ou dar uma escapadinha para ver o namorado na cidade vizinha.

Poucos minutos no local são suficientes para ver o fluxo aumentando, atordoando e deixando no ar o cheiro característico de óleo da descarga dos veículos, do tradicional pastel da rodoviária (quem não experimentou?), do perfume da jovem que passa, do suor do operário. É o vai e vem unindo histórias de adultos, jovens, crianças e idosos. Diferentes classes sociais se cruzam em direção ao mesmo destino. Todos juntos “na plataforma desta estação que é vida”, lembra a canção interpretada por Milton Nascimento.

Olhares que esperam pacientemente a saída ou a chegada; que aguardam ansiosos pelo embarque; que ignoram e perdem a noção do tempo (e o ônibus); que flertam; que querem o movimento; que se confudem com a inércia do banco em frente ao box de estacionamento.

E a cada partida, o desejo de irmos também. Em cada chegada, a esperança do retorno. Em cada estação de embarque a mesma condição humana ansiando por ir além, ultrapassar divisas, romper fronteiras, jogar-se ao desconhecido como nômades. O homem e sua eterna insatisfação, mola propulsora que o leva a desbravar novos caminhos, a revisitar o passado, a matar a saudade longe daqui, a retornar para o aconchego do lar.

Ir ou vir, ficar ou avançar, partir ou chegar. O coração andarilho de Taquara vai pulsar mais forte em outro lugar, um pouco mais distante do centro, mas levando para lá os mesmos anseios, as mesmas histórias de vida, o mesmo desejo de todos nós de encurtarmos distâncias e de embarcar em viagens e sonhos, desembarcar tristezas, transportar emoções, etc, etc. E como na letra da música, quem fica poderá cantarolar em silêncio: ...”Mande notícias do mundo de lá...”.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A fila anda


Por Roseli Santos


Fiquei aqui pensando, ruminando até, no significado da palavra “ficar” e descobri uma infinidade de possibilidades para quem fica, ou seja, para quem não é nem namorado, nem compromissado, nem casado, nem uma coisa nem outra, enfim, apenas um “ficante”. Me flagrei achando graça dos que ficam, como eu, você e 90% do mundo todo, neste instante, embora alguns, como eu, demorem um pouco para perceber essa condição. Hilária reflexão que me levou à descoberta de que a vida ainda não me acrescentou algumas experiências fundamentais, como esta, de ser uma “ficante” que fica na boa, mesmo sem ficar. Dá pra entender?

Pulei este capítulo da maturidade emocional, infelizmente, mas agora entendi que ficar é estar o suficiente para não cair em frustrações desnecessárias, é deixar-se entregar estando. É estar sem entregar-se totalmente. Seria mais fácil escrever uma história, um conto que poderia ser intitulado na “Terra do Fica”. E na condição de “ficantes”, entenderíamos que só o instante existe (plagiando Cecília Meireles), sem temer o futuro que nos cobra atitudes perenes, sábias, inteligentes, coerentes, sóbrias, com desfechos sensacionais, mágicos, fantásticos, a espera de sempre mais e mais e mais... sabe-se lá o quê.

Imperfeições manifestas em atos insanos que afloram em situações extremas de embriaguez, de solidão, de tristeza, de depressão e de angústia, por quê não? Por isso o ficar... o estar... o agora, que nos permitem “ser” ficando; nos deixam ficar, sendo aquilo que realmente somos, no único instante que importa, que é o momento atual. E com tantas possibilidades, me rendo e aprendo uma nova condição amorosa, nem melhor, nem pior, apenas desconhecida para quem ainda acreditava em Conto de Fadas, Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, Bicho Papão, Príncipe Encantado, etc, etc, etc.

Está certo que a fila anda, mas (como diz o professor e escritor André Maciel, convidado especial do nosso próximo Sarau com Café, dia 30 de abril) não precisa empurrar! Vamos tentando, passo a passo, seja ficando, seja caminhando, seja buscando e, um dia, quem sabe, nos reencontrando novamente, em outra oportunidade de vida, de relacionamento, de amizade e de troca.

Claro que nada é tão fácil assim. Não pense que sairemos impunes desta jornada. Prepare-se, a vida nos aprontará novas armadilhas e, quando menos esperamos...olha nós, aqui, novamente, recomeçando, flertando, ficando, namorando, enfim...andando, porque a fila segue e a vida vai em frente, sim senhor!!! E nem precisa perguntar para onde.
Então, está esperando o quê?


sábado, 4 de abril de 2009

Fidelidade

Por Roseli Santos


Jorge era fiel. Há 35 anos mantinha um casamento exemplar, nunca traíra a mulher. Jamais faria isso. E não adiantavam os apelos dos amigos sessentões para que ele relaxasse, desse uma trégua, olhasse para os lados, apreciasse a beleza das mulheres que desfilavam juventude pelo calçadão. Jorge não se perturbava com isso. Era fiel.

Tinha uma esposa maravilhosa, dois filhos na faculdade, um cursando Medicina com muito sacrifício e outro quase se formando em Arquitetura. Eram seu orgulho na vida. Prezava a família mais do que tudo. Nunca trairia sua mulher, independentemente dos apelos maliciosos dos amigos que já haviam dado suas escapadas por aí para quebrar o tédio e a monotonia de casamentos forjados em aparência.

Ele não. Saía do escritório onde trabalhava como Contador e ia direto para a casa. Quando aceitava um bate-papo no bar do calçadão com os colegas, era firme: - “Tomo apenas um drinque e vou embora”. E assim acontecia. A mulher o esperava todos os dias para o jantar, e isso era sagrado para ele também.

Futebol com os amigos aos finais de semana, nem pensar. Melhor mesmo era ficar com a família, visitar os parentes e ficar ao lado da sua companheira de tantos anos. Sandra recém completara 59 anos, mas não aparentava a idade. Ainda conservava a beleza loira de quando era considerada uma das mulheres mais lindas da cidade. Casou com Jorge por paixão, sim, agora dissipada pelos anos de convivência e transformada em outra coisa.

Para ele, os sinais do tempo tinham marcas mais profundas. Aos 62 anos, as rugas insistiam em acentuar sua expressão envelhecida, mas mantinha um certo charme valorizado pelos cabelos grisalhos. Os filhos pouco ficavam em casa. Tinham compromissos assumidos com as namoradas, com a faculdade, com os amigos. Aos domingos, todos se reuniam, com raras exceções. Aí sim, Jorge sentia-se realizado e completo.

Alguns amigos, ao contrário, sempre que possível, fugiam dos compromissos familiares. Filhos crescidos, esposa ausente, eles optavam por buscar alguma aventura esporádica para apimentar a existência. – “A vida passa rápido e logo não estaremos mais aqui para contar histórias”, diziam, empolgados, para justificar escapadelas no final da tarde ou aos sábados, quando o futebol e o churrasco com os amigos eram a desculpa mais palpável para ousadias sexuais com parceiras já conhecidas da turma. Por isso, aproveitavam quando o tempo permitia para dar uma fugidinha sem conseqüências, jogo rápido, emoção garantida, sem culpa, enquanto as mulheres se dedicavam a coisas menos nobres, segundo eles, como ficar fofocando com as vizinhas.

Jorge não. Jorge era fiel e, raramente, chegava muito tarde em casa, a não ser quando o trabalho realmente exigia horas extras para deixar tudo em dia. Naquela semana, então, havia muita coisa a ser feita e ele acabou ficando todos os dias até tarde no escritório par dar conta do serviço. Chegava em casa próximo da meia-noite e já encontrava a mulher dormindo.
Na outra semana, a rotina de trabalho se intensificou quase todas as noites novamente. Jorge pensava em compensar a ausência do lar assim que as coisas se acomodassem. Quando pode, resolveu surpreender a mulher. Em plena quarta-feira, saiu do escritório às quatro da tarde. Comprou flores, bombons e pensou em namorar como antigamente.

Abriu a porta vagarosamente, chamou-a pelo nome e imaginou que ela tivesse ido ao supermercado. Esperou pacientemente, quase seis e nada. Abriu o melhor vinho e começou a preparar um jantar especial. Sandra ainda não chegara, afinal estava acostumada a preparar tudo mais tarde, quando o marido chegasse. Ele sabia que ela não suspeitaria da surpresa e seguiu, cozinhando e degustando o vinho tinto que atento apreciava.

Quando escureceu, se deu conta de que alguma coisa tinha acontecido. Não era possível tanto atraso assim. Tentou o celular e ela não atendeu. Olhou ao redor para ver se havia deixado algum bilhete e se deparou com algo em cima da mesa da sala.

Era um recado endereçado a ele, escrito pela mulher, justificando o atraso: “Chega dessa vida medíocre. Fui ser feliz”.