terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Fechado para balanço

Por Roseli Santos

Balanço de final de ano não é comigo. Nem musiquinhas de Natal. Dispenso a neurose que toma conta de quase todos e, só assim, consigo sobreviver ao caos do mês de dezembro. Já disse certa vez que me reservo o direito de rejeitar convites nesta época do ano, com raras exceções, claro. Mas se quiserem, me chamem para qualquer festa em qualquer outro mês que eu topo, menos em dezembro, por favor.


Como se não bastasse tudo isso, a gente ainda tem que aguentar uma infinidade de apelos visuais, virtuais, ao vivo, na TV, nos jornais, na rua (já ouviram esses carros e motos com som de ensurdecer?). O apelo consumista está por toda a parte, além das obrigações impostas sei lá por quem de que final de ano é época de reavaliar a vida, de fazer novos planos, de dar presentes, de sorrir e de ser obrigatoriamente feliz.


Nego-me! Quem disse que há data marcada para repensarmos nosso planos, darmos um novo rumo à vida e dia e hora agendados para sermos felizes? Só porque é Natal? Sinceramente, quem inventou tudo isso deve acreditar que as coisas mudam por decreto ou por milagre. Basta pensar positivo, determinar o dia e...bumm, tudo será diferente como num passe de mágica.


Fixar uma data para festejar as nossas alegrias ou amargarmos nossas tristezas é deprimente demais. Decretar momentos para sermos solidários e cordiais com nossos semelhantes, também. Alguém aí lembra das crianças pobres e carentes nos meses de abril, maio ou agosto? Aposto que a maioria não. Voluntariado que se preze age em dezembro; caridade e compaixão, só em dezembro; compras, compras e muitos sorrisos para todos, só em dezembro.


Nada contra as festas de final de ano, mas prefiro optar por colher o melhor de tudo ao longo de cada dia, paulatinamente. Refletir, planejar, executar e viver plenamente qualquer instante, já que nunca sabemos quando a felicidade ou a tristeza baterá à porta. É como aquela velha história do cidadão que diz: - “Quando eu me aposentar vou aproveitar”. E se morrermos antes, o que fazer com o prazer guardado para ser desfrutado em um dia que nunca chegará?


Quando eu me aposentar é o mesmo que dizer: - “No ano que vem eu vou aproveitar mais a vida”. Tomara que aproveite, claro, mas por quê no ano que vem? Por quê não agora? Hoje? Ser feliz é consequência do caminhar, do ato de seguir “apesar de”, diria Clarice Lispector.


E apesar de ser dezembro, Natal, final de ano e tudo o mais, eu desejo, sinceramente, que todos encontrem dias melhores no ano que se inicia. Mas quero, principalmente, brindar neste momento todos os dias vividos em 2009. Intensos, alegres, tristes, chuvosos, deprimentes, ensolarados, surpreendentes, coloridos, apaixonantes... não importa. Valeu compartilhar todos (ou alguns) deles com vocês. E não se desesperem. Dezembro já vai terminar (ufa) e há um ano inteiro novinho chegando por aí. Ainda bem!





domingo, 22 de novembro de 2009

The End

Por Roseli Santos

Essa coisa de fim do mundo já é antiga e ressurge, de tempos em tempos, com diferentes teorias e pontos de vista. O que mais me intriga é a reação das pessoas. Há os céticos e os apavorados, os crentes e os desligados, mas a grande maioria acredita realmente que o fim do mundo está próximo.

O comentário de uma amiga me chamou a atenção dia desses: “Nós somos os dinossauros da vez”. Concordo plenamente. Ou alguém aqui acha que viverá eternamente neste planeta devastado sem sofrer os efeitos cósmicos das mudanças do universo? Muito contribuímos para a destruição, claro, mas basta pesquisar um pouco além para vermos que tudo é mutável na natureza ao longo das eras geológicas.

Com certeza, o efeito estufa, a poluição constante, o desmatamento e a sujeira que o ser humano está largando por aí são fatores que resultam em consequências vivenciadas por todos nós, cada vez com mais freqüência, como enchentes, furacões, tsunamis, entre outras catástrofes diárias registradas pelo mundo afora. Acontece que há, também, coisas que fogem à nossa compreensão e ao nosso controle. O cosmos está sempre em movimento, se expandindo, se modificando. Entre milhões de galáxias, quem somos nós para achar que aqui as coisas serão permanentes?

Me surpreende o pavor de alguns seres humanos diante do óbvio. São obcecados pelo medo da morte, com o final dos tempos, enfim, mas não conseguem olhar além de seu próprio jardim. Para alguns “dinossauros”, vale o seu bem estar. Tragédias são coisas distantes, que acontecem com os outros. O medo do desconhecido resulta, simplesmente, do fato de se negarem a ver seus semelhantes como iguais, todos tripulantes de uma mesma nave, que pode desgovernar a qualquer momento.

Envoltos em crenças medíocres, esquecem que a vida é muito mais do que as aparências exibem. Mais fácil assistir as tragédias pelos telejornais, em fotos nos jornais, desde que bem longe daqui. Mas quando o problema bate à porta, como vem ocorrendo nos últimos meses aqui bem próximo, na esquina da sua casa, ressurge o medo, a incerteza, a fragilidade diante do imponderável.

Se o fim do mundo está próximo, não sei. Pode ser que tudo acabe amanhã ou em 2012, como pregam alguns, ou daqui a 300 anos, quando obviamente ele já terá acabado para todos nós de qualquer maneira. Se somos os dinossauros da vez, melhor é aproveitarmos o tempo que nos resta pensando na vida e não na morte, já que ela inevitavelmente chegará para todos. Mas a vida plena, essa sim, só saberá o que é quem se entregar sem medo às dores e as delícias de estar aqui, no presente. E, se tudo der certo, quem sabe nos encontraremos em 2010, 2011, 2012, 2013, 2014... felizes por termos sobrevivido a nós mesmos.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Coisas e coisas

Por Roseli Santos


Há pessoas que idolatram suas “coisas”. Já repararam nisso? Gente que não consegue se desapegar do concreto, do material, do palpável. Daquilo que elas acreditam ser o centro do universo, incluindo seus próprios umbigos, suas próprias vidas como única “coisa” importante.

Essa gente está tão preocupada com as coisas que tem, que não tem ou que os outros têm, que acaba se fundindo em algo estranho, quase a coisa em si, de tão superficial. É até possível ouvir seus diálogos interiores, seus anseios, suas necessidades transmutadas em coisas, qualquer coisa.

Conheço algumas pessoas que são a cara de seus móveis, de suas roupas de seus sapatos. Amam suas mesas e cadeiras como a si mesmas e acabam se tornando a imagem e semelhança de seus objetos de estimação. Abstração é uma palavra e um sentimento que elas desconhecem, ignorando o quê há de realmente humano em todos nós (ou quase todos).

Às vezes fico observando algum desavisado envolto em suas coisas e vejo nele a solidão de um poste, de uma estátua no canto da sala, de um vaso abandonado no jardim. É possível ver até a cor do objeto a que se assemelha a criatura, tal o tamanho de sua coisificação. São tão engraçados falando de suas coisas como se isso fosse capaz de substituir sentimentos concretos, emoções verdadeiras, satisfação real. “A minha mesa, o meu fogão, o meu freezer”...Relatam suas aquisições materiais recentes em detalhes como conquistas e troféus a serem exibidos para os outros, de uma relevância extrema, de uma urgência exibicionista que beira o ridículo.

Tempos de consumo fácil onde qualquer um, sem qualquer consciência da fugaz importância e do lugar que as coisas realmente devem ocupar na nossa vida, acaba se tornando o próprio objeto que idolatra, a cara de sua mesa, de suas cadeiras, de seus tapetes. E alguns desabam no chão, literalmente, tombados pelo peso de tanta futilidade, frieza, tristeza e solidão, que já não é mais possível identificá-los, transformados nas coisas que os cercam, engolidos e massacrados por elas.

Deixem seus armários, seus sofás, seus espelhos, suas louças, seus cristais para lá, no lugar que lhes cabe de direito, como coisas que realmente são. Respirem alegria, expirem sorrisos, comprem ilusão, acumulem amor, financiem amizade em longas parcelas e adquiram felicidade duradoura. O resto é ilusão.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Desacelerando

Por Roseli Santos


Todo o aparato tecnológico utilizado por nós nas atividades diárias, especialmente no trabalho, deveria nos render, pelos cálculos dos especialistas, muitas horas livres para não fazermos nada ou apenas aquilo que nos seja prazeroso. Mas pergunte aí a qualquer colega seu, neste momento, se ele tem tempo sobrando para um papinho ou um happy hour. Pergunte a você mesmo se tem esse tempo para curtir o final do dia tranquilamente jogando conversa fora em um bar, por exemplo, com seu melhor amigo. A resposta será não! Não sobra tempo.

O dia poderia ter 50 horas só para darmos conta de mais trabalho, mas nunca para relaxar e gozar a vida. Não podemos parar, é necessário dar conta de tudo e mais um pouco; é preciso estar online sempre para não ser esquecido; é urgente ganhar mais dinheiro para comprar mais, ser mais, querer mais. Falta tempo e coragem para desacelerar.

O assunto foi abordado esta semana pela psicanalista Maria Rita kehl, em Porto Alegre, alertando para o fato de que a aceleração constante leva à depressão e, tenho certeza, de que a outras doenças mais graves também. Tudo o que foi inventado para facilitar a nossa vida nos prende cada vez mais a coisas que nos amarram, nos tolhem e nos viciam, se permitirmos, claro. E não é a toa que vejo jovens, muito próximos a mim, dizendo que não conseguem dormir. Só desligam quando é madrugada, horas antes de levantar e ir para a aula. Até então, ficam conectados com outros zumbis que varam as madrugadas no computador para não perder tempo e nem o que está rolando na net.

Depressivos, ansiosos, insones, amedrontados, esses serão os adultos que nos substituirão logo mais por aí. E, ao que tudo indica, terão menos tempo do que nós para fazer tudo e ainda mais; para serem melhores; para consumirem alucinadamente e estar em todos os lugares virtuais simultaneamente. Se possível, online, sempre!

Me peguei assim dia desses, angustiada por querer fazer muito mais do que faço, por querer estar em outros lugares, curtir todos os amigos, ler todos os livros, ver todos filmes que deixei prá trás, etc, etc, etc. A lista é interminável e, lamentavelmente, me dei conta de que assim será para sempre. Impossível querer e ter tudo, sempre haverá coisas a fazer. Ainda que o dia tenha 50 horas, não conseguiremos cumprir as inúmeras tarefas e desejos que nos batem à porta, não poderemos atender e contentar a todos, mas poderemos desacelerar.

Palavra mágica, o próprio nome freia os pensamentos, nos deixa mais lentos....desacelerados. E aos poucos, desacelerando, descobre-se que cada segundo é precioso, cada minuto uma possibilidade, cada hora uma eternidade, se soubermos nos ouvir e contemplar cada coisa a seu tempo. Claro que a lista continuará ali com algumas prioridades inadiáveis, trabalho por esperar e prazeres a serem desfrutados. Sempre haverá coisas inacabadas, desejos não realizados. A lista de cada um de nós ficará depois de nós, apesar de nós. Não tem jeito.

Desacelerar, palavra mágica que muda a vida, salva um cidadão da loucura e o liberta para voar no tempo e não para ver o tempo voar. Não se preocupe, a lista agregará sempre novas necessidades, o mundo continuará girando e a vida segue. Portanto, com licença, preciso parar de escrever para poder aproveitar melhor o tempo que sobra agora para me dar um livro de presente, fazer um jantar para os amigos, namorar mais, olhar aquele filme ou, quem sabe, ir prá casa e não fazer absolutamente nada nas próximas horas. E ainda por cima, sem culpa, tá?


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Salvem suas flores



Por Roseli Santos



A água da enchente destruiu tudo no casebre construído em uma vila da periferia de Porto Alegre. Tragédia anunciada e repetida agora imagens no noticiário de TV, enquanto a câmera percorre o local exibindo cenas já conhecidas dos moradores que, mais uma vez, dão seus relatos de perda, de desolação, de cansaço diante do descaso e da omissão das autoridades.


Uma senhora de olhar distante testemunha mais uma vez o medo e a impotência diante da água e do barro que invadem os cômodos da casa paupérrima todos os anos. “É sempre assim”, diz resignada.

Perdeu a mãe dia desses e agora veio a enchente. E revela a angústia que passou enquanto a água do rio subia, na tentativa de salvar, não algum móvel ou outro bem material, mas as flores vermelhas plantadas em um vaso que a mãe lhe havia presenteado dias antes de morrer.
Em meio ao caos, ela mostra orgulhosa a planta que sobreviveu à enxurrada. Diz que assim lembra da mãe, mantendo as flores por perto.


Os olhos com lágrimas exibem o vaso florido e ela sorri. Um sorriso que contempla terno e triste, ao mesmo tempo, o símbolo amoroso deixado pela mãe antes de morrer e que ganha um significado tão intenso e muito mais importante do que a perda dos poucos bens materiais destruídos pela água.

Sorri porque salvou as flores, numa demonstração de desapego total ao que a enchente destruiu, ainda que pouco tivesse adquirido para sua subsistência no casebre. Sorri exibindo a planta como um troféu diante do infortúnio e da fúria da natureza.

Ao me deter fixamente no rosto daquela mulher, marcado por rugas profundas, vi transparecer nos olhos azuis ou verdes uma beleza indescritível; transbordar um amor incondicional intenso, capaz de suportar qualquer dor, qualquer perda, ainda que a da própria mãe.

E ela sorri, transcendendo os problemas imediatos causados pela fatalidade, ignorando qualquer futilidade, rendendo-se à fragilidade humana, certa no seu simplório e ao mesmo tempo profundo e filosófico pensamento, de que apenas o amor pode sobreviver a tudo.

Antes que o tempo nos leve, também, aprendamos nós com essa senhora a salvar nossas flores. E são tantas, com certeza, que muitas vezes as esquecemos abandonadas no jardim da vida, enquanto estamos preocupados em salvar outras coisas sem qualquer valor e que poderão nos ser arrancadas a qualquer momento, assim como as flores do nosso jardim.





segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Deixem-os voar









Por Roseli Santos


As pessoas e suas histórias sempre me interessaram. Por força da profissão e por hábito de vida, aprendi a ver observando além das aparências. Algumas coisas me envolvem, outras me emocionam profundamente e de outras eu me afasto, deliberadamente. Ainda assim, no balanço que faço de mim mesma, tenho agregado muito mais do que repelido, amado muito mais do que ignorado, sentido intensamente.

Há seis anos, especificamente, o Sarau com Café me traz novas e fascinantes experiências de vida, de troca, de interação, de amor e de amizade. Cada encontro é único, sem o menor exagero. Cada sarau uma festa, cada convidado uma alegria. E cada última quinta-feira do mês, uma bela surpresa.

Na semana passada não podia ser diferente. Jovens com idade entre 12 e 20 anos fizeram do sarau um momento muito especial, mostrando seu talento na arte, na música e na literatura. Que alívio testemunhar que nem tudo está perdido enquanto tivermos por perto o sonho e a fantasia brotando em corações tão cheios de entusiasmo.

Senhores, acreditem!! Há vida além da tela de um computador, há criatividade prestes a transbordar, há música nas veias, há arte no DNA desses pequenos talentos à espera de um espaço para exibir o que têm de melhor.

Cada um com suas habilidades. Alguns em sua primeira aparição pública; outros acostumados com aplausos e luzes; e outros ainda inseguros quanto à reação do grande público que lotou o espaço do Sarau com Café para prestigiá-los. Mas nenhum deles indiferente, empenhados que estavam em mostrar a sua melhor performance.

E foi justamente o empenho, a dedicação, a euforia e, principalmente, o entusiasmo dessa galera que me emocionou mais do que qualquer outra coisa. Eles resgataram em mim, e talvez na maioria das pessoas ali presentes, o desejo, a crença e a fé de que é possível fazer o que se gosta. Nem todos terão a música ou o teatro como profissão, mas sonham com isso. Aí está a grande diferença...o sonho que esquecemos, os desejos que ignoramos, as ambições que abandonamos, o quanto abdicamos de nós mesmos ao longo dos anos, consumidos em compromissos inadiáveis, em frustrações profissionais, em horas permutadas por dinheiro, em tempo perdido atrás de estabilidade, de nada.

Senhores, acreditem! Nem tudo está perdido. Há vida logo ali na esquina, nos olhos e no sorriso daqueles jovens, desde que lhes abram uma janela, lhes apontem um caminho, uma oportunidade. Mas jamais roubem seus sonhos. Senhores, não cortem suas asas, deixem-os voar!!





segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Com que roupa?

Por Roseli Santos


Alguns políticos, na falta de algo mais interessante para fazer, ficam inventando “moda”, literalmente. Pois um vereador de Porto Alegre (e nem vou citar nome e partido por motivos óbvios) resolveu implicar com as roupas usadas por duas colegas do Legislativo. Me chamou a atenção o fato dele se sentir ofendido, ou sei lá o quê, por uma das vereadoras usar tênis e outra camiseta com jeans durante as sessões.

Indignado, sugeriu que as mulheres devem estar vestidas adequadamente em Plenário, com terninho, salto alto, camisa, enfim, passeio completo. Pode até ser que fique mais elegante, vá lá! Mas, sinceramente, faz alguma diferença? Se elas estivessem de minissaia, decotes ousados ou vestidos transparentes talvez se justificasse o mal estar sentido pelo cidadão. Ou, ao contrário, talvez ele nem reclamasse.

Mas a futilidade da observação, o protesto contra as colegas por estarem vestindo camisetas ou jeans, não me parece algo coerente, tendo em vista os freqüentes escândalos que rondam nossa classe política, ultimamente, em todas as esferas. Não seria mais sensato discutir temas de interesse público, soluções para os problemas da comunidade, se preocupar com a ética e os trabalhos legislativos, ao invés de ficar avacalhando com a roupa das mulheres, enquanto eles vestem terno e gravata?

Terninho muda alguma coisa se a pessoa não desempenhar bem o cargo para qual foi eleita? Salto alto termina com a corrupção que existe neste país? Os crimes que mais atentam contra a nossa integridade como cidadãos que pagam religiosamente seus impostos não são os assim chamados de “colarinho branco”?

Sem qualquer julgamento quanto à reputação ou ao desempenho dos vereadores, neste caso, o que questiono é se essa é, realmente, uma “questão de ordem” fundamental para o bom andamento dos trabalhos da Casa. Internamente, quem sabe, poderiam flexibilizar o tipo de vestuário que cada um queira usar, sem exageros, claro, o que seria de bom senso. Obviamente, nenhuma dessas mulheres trabalharia de top e minissaia, assim como os homens não iriam de bermuda ao Plenário.

Com que direito, porém, alguém determina o quê você vai vestir? Cada um tem seu próprio estilo, e até pode obter dicas de algum profissional da área, se achar conveniente e necessário, dependendo da ocasião. O modo de vestir está intrínseco à personalidade de cada um, ainda que fora dos “ditos” padrões da moda ou do olhar mais crítico, como o do vereador em questão.

De qualquer maneira, não me parece que camiseta, jeans e tênis tenham interferido na votação que elegeu as colegas vereadoras, hoje ocupando seus cargos e desempenhando, espera-se, dignamente suas funções legislativas. Aliás, talvez o que falte mesmo é um olhar menos superficial, como este do ilustríssimo vereador, para que a política e seus membros deixem de ser aparência e passem a servir realmente a que se propõem, que é o bem estar de todos os brasileiros.



quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Cartas, e-mails, scraps ou tweets?

Por Roseli Santos


Meus e-mails são verdadeiras cartas. Não adianta. Com raras exceções, escrevo tudo sem engolir, abreviar ou inventar novos vocábulos. Sou analógica ao extremo nesse aspecto, embora esteja me adaptando a dizer tudo com menos caracteres em scraps no Orkut, msn e no próprio correio eletrônico.

O meu mais novo e grande desafio, agora, é o Twitter. A febre do momento na internet é um fenômeno de mídia social, tipo chat, que ganha milhares de seguidores todos os dias. Eu, que me enchi de coragem para criar um blog apenas este ano, acabo de ficar obsoleta com o tal do Twitter e tenho que me render a mais esta novidade online para me comunicar com os meus leitores, amigos e parceiros fieis do Sarau com Café.

Até aí tudo bem. Claro que é necessário acompanhar as inovações tecnológicas na área da comunicação, estar atualizado com as novas mídias, divulgar ao máximo as nossas atividades para o maior número de pessoas, etc, etc, etc. Até para não ficarmos totalmente offline e defasados. Mas o Twitter me impõe um desafio dolorido. É preciso dizer tudo em 140 caracteres, pode? Como dizer “tudo” em 140 caracteres? Logo eu, acostumada a escrever longos e-mails, verdadeiras cartas; a narrar crônicas e a publicar contos e artigos que nunca somam menos de 2.000 caracteres, aproximadamente.

Confesso uma admiração secreta por quem consegue dizer tudo em poucas palavras, um exercício que pretendo aprimorar, quem sabe com essa nova oportunidade. Há os que conseguem dizer tudo, também, apenas com um olhar, mas aí é outro papo. Acontece que, apesar das inúmeras bobagens postadas no Twitter diariamente, tenho lido coisas interessantíssimas escritas em míseros 140 caracteres. Morro de inveja e de admiração pelo Carpinejar, escritor e poeta, que todos os dias me surpreende no Twitter com emocionantes reflexões de vida, de amor, de tudo, com aquelas poucas e precisas palavras digitadas ali.

Como jornalista, sempre preferi matérias e textos mais longos, reportagens maiores, aprofundadas, o que era, frequentemente, uma dificuldade com a falta de espaço. Quando o editor cortava alguma parte da matéria, amputava uma parte de mim junto. Trabalhar em rádio me ajudou um pouco a dizer apenas o necessário em uma notícia. Sempre com alguma dificuldade e com a sensação de que ainda precisava dar mais informação aos ouvintes.

Não discordo dessa nova maneira de dizer tudo tão rapidamente pela internet. Há o lado prático, obviamente, como o tempo que nos é poupado em ler grandes asneiras. O meu único questionamento é saber se não estamos nos tornando tão superficiais, fúteis e imediatistas, a ponto de não termos, realmente, nada a dizer. Não estaríamos alimentando, também, uma geração de “não leitores”, quase analfabetos, incapazes de compreender raciocínios mais complexos, com mais de 140 caracteres?

Na dúvida, escrevo mais esta crônica para não me perder de mim mesma e manter o blog que me salva dos lacônicos “tweets” e me permite ser prolixa, sem culpa. De qualquer maneira, tá dado o recado lá também. Acessem http://twitter.com/saraucomcafe. Novos tempos, queridos amigos. E paro por aqui, nos 2.659 caracteres (sem os espaços) antes que me crucifiquem.


quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Bem na foto

Por Roseli Santos


O registro fotográfico sempre foi, e sempre será, uma das maneiras mais fiéis de preservarmos a memória dos acontecimentos. Hoje, mais do que nunca, a captação de imagens se popularizou, tanto pelas facilidades oferecidas para a compra de uma câmera, por exemplo, quanto pelo processo de divulgação imediata do que é registrado.

Claro que isso é fantástico, mas tenho observado que já não se “olha” mais verdadeiramente para as coisas antes de registrá-las, seja na memória ou em fotografia. As pessoas simplesmente saem fotografando tudo, indiscriminadamente, e se esquecem literalmente de “ver” o que está acontecendo por medo de perder a imagem. Já repararam nisso?

Basta uma apresentação do filho na escola e os pais simplesmente saem histéricos espocando o flash para todos os lados na expectativa de reter tudo o que está acontecendo. Esquecem, no entanto, da coisa mais preciosa naquele instante que seria, talvez, olhar nos olhos daquela criança que procura afoita para ver a reação dos pais diante da sua performance, e que está pouco se importando, naquele momento, se sairá bem na foto.

Novos e tristes tempos, me parece, em que “olhar” não significa necessariamente ver; em que “estar” já não importa tanto quanto comprovar a presença em imagem; em que vale mais um registro digital do que uma emoção verdadeira. Obviamente que a fotografia ajuda a congelar lindos momentos, mas precisa esse exagero? Não seria melhor uma pausa antes de dispararmos os flashes, como fazíamos com as câmeras analógicas, pensando um pouco antes de enquadrar, de focar, de fotografar, para retermos apenas o essencial, o instante mágico que ficará para a posteridade?

A rapidez com que se quer tudo, imediatamente, atropela o melhor da vida, encurta a caminhada, amarela as fotos antes do tempo. Melhor seria curtirmos o trajeto mais lentamente, olhando, observando e revelando calmamente cada momento, como se fazia nos antigos laboratórios fotográficos, com o papel mergulhado em bacias de produtos químicos, antes de se tornarem fotografia. Quando a gente menos esperava, em segundos, surgia a imagem grafada em luz na folha branca, descortinando surpresas e a beleza de um fato único que não se repetirá, como a nossa passagem por aqui.




terça-feira, 18 de agosto de 2009

A música de Roberto Carlos

Por Clair Wilhelms




Em tempos de shows e homenagens ao “rei” Roberto Carlos, aí está um texto escrito pela professora e colega colaboradora da Academia Lítero-Cultural Taquarense, Clair Wilhelms. Confesso que não sou fã dele, mas reconheço o seu lugar de destaque na música brasileira, assim como recordo ( e quem não lembra?) da letra e a melodia de algumas canções destacadas por Clair logo abaixo. Aos fãs, então, boa leitura:





"O cantor e compositor Roberto Carlos está completando cinquenta anos de carreira criando músicas diversificadas para os mais variados gostos e fazendo sucesso por onde quer que passe. Isso não é por acaso.

Às vezes, vivemos situações que nos marcam profundamente. Algumas são de alegria, outras de tristeza, mas sempre deixam marcas. Normalmente, para relembrá-las, as relacionamos a um lugar ou, como um grande número de pessoas, a uma canção.

A música mexe com nossos sentimentos e atitudes. Também nos faz chorar, sorrir, gritar, dançar, cantar, falar. Poderia enumerar centenas de verbos e mesmo assim não definiria todas as ações ou estados que a música pode provocar em nossas vidas.

Assistindo a alguns programas da TV no decorrer das últimas semanas, onde houve inúmeras homenagens ao “Rei Roberto”, deu para perceber uma coisa: por mais que o tempo passe, ficaram as canções. Muitas jamais morrerão, pois ainda hoje provocam uma espécie de “frenesi” no público, “uma força estranha”, quando interpretadas pelo autor ou por quem quer que seja.

Quem nunca cantarolou uma canção do Roberto? Olha, fazendo um desabafo é bom lembrar que a música traz tantas emoções, tantos detalhes. Ouvindo-a num café da manhã ou numa cavalgada, seja acompanhado de uma mulher de 40 ou mesmo de Nossa Senhora. Sei lá, só sei que eu daria minha vida para saber como vai você e poder dizer, outra vez, de que vale tudo isso se não posso te dar o céu e que só vou gostar de quem gosta de mim. Lembro ainda todas as canções que você fez pra mim e de todas as vezes em que eu disse: te amo, te amo, te amo.

Falando sério, a distância não importa. Só sei que ela é a mulher da minha vida. Até podem dizer que sou amante à moda antiga, mas custe o que custar, esqueça, pois além do horizonte vou buscar a deusa da minha vida, mesmo tendo que subir a mais alta montanha e derrapar nas estradas de Santos. Mesmo assim, tenho fé que conseguirei, pois eu amo demais.

Quando vejo as flores do jardim da nossa casa, nem penso na palavra adeus. Mesmo se disse adeus, só sei que quero que tudo o mais vá para o inferno, pois tudo isso aqui é meu, é meu, é meu e fico uma fera ferida quando dizem que tenho ciúmes de você. A única coisa que eu sei, realmente, é de como é grande o meu amor por você e que só você, minha amada amante, faz o mundo de nós dois.

Espero o final de semana. Está previsto que quando as crianças saírem de férias poderemos fazer uma festa de arromba e não vai ser preciso chamar sua atenção. Você não vai deixar alguém a te esperar e se pretende saber quem eu sou eu poderei lhe dizer: sou aquele que quer que você seja só minha mulher. Não quero mais ver você triste e nem vamos deixar que o amor se vá, eu só vou se você for. Este é o Roberto, suas músicas, enfim...

Muitos poderão dizer: querem acabar comigo, mas depois de tudo isso, penso que temos que nos render e declarar honras a quem consegue por tanto tempo fazer sucesso e também ser fiel a um número incalculável de fãs. Com certeza não é por acaso que o “Rei” se mantém neste patamar no mundo da música.

Como fã, fico feliz por ter podido acompanhar esta trajetória musical e por que não dizer, literária, já que entre as músicas do Roberto Carlos, há canções que são verdadeiras obras poéticas".








sábado, 8 de agosto de 2009

Pais e filhos



Por Roseli Santos


Era um hábito na minha infância sentar sobre o encosto do sofá e esperar por ele, à noite, após o jantar. Pacientemente, ele concordava em deixar eu acariciar os seus cabelos, brincar de “fazer penteado”. E eu me divertia com grampos, pentes e escovas que alisavam os poucos cachos, suavemente, entre risos ingênuos, num raro momento de toque e carinho, que nunca ultrapassava mais do que isso, mas que significa a imensidão do meu amor.


Meu pai, ali, sentado no sofá e eu alisando seus cabelos, demonstrando, da única maneira que sabia, o meu imenso carinho e minha intensa admiração por ele. Um pai que se deixa acariciar por uma filha ao chegar do trabalho, relaxando ao final de um dia intenso de trabalho, quase um poema, hoje transformado em uma das minhas mais lindas lembranças da infância com ele.


Essa era a recompensa maior. Uma brincadeira de menina, que ele encarava com a maior naturalidade. Se deixar pentear e ser “arrumado” do meu jeito, com grampinhos e tudo o mais, para rirmos juntos, depois, de tudo aquilo. Talvez esse seja o momento mais sublime do meu amor por ele, brincar, alisar, escovar os seus cabelos.


Hoje, ao encontrar a foto da minha sobrinha (esta doçura da foto, que hoje tem 18 anos) lembrei dele tão intensamente, não somente pelo amor que ele tinha por ela. Olhei a foto e o vi ali, presente, brincando na areia da praia com ela, preocupado com o sol, com os perigos do mar, com a areia, com a alimentação, enfim, com tudo o que pode e deve um avô se preocupar.


Mas foi um detalhe que o fez mais presente do que as lembranças. Sob a cadeira, um par de chinelos repousa junto aos brinquedos da neta. Lembrei imediatamente dele caminhando na areia, lembrei daquele chinelo, exatamente, do jeito dele deixa-lo ali, enquanto circulava pela praia com a minha mãe ou ia banhar-se, lembre também, acreditem, dos seus cabelos e dos “penteados” que eu fazia quando criança. Uma foto, uma par de chinelos e um mundo de poesia transbordou em mim às vésperas do Dia dos Pais.


Então, aí vai a minha homenagem póstuma a ele, através desta foto, que diz tanto que eu não consigo expressar em palavras. Sinto apenas os fios dos cabelos desalinhados em minhas mãos, tentando pentea-lo do meu jeito para que ficasse sempre “mais bonito” na minha memória de criança, recuperada em uma foto perdida, tantos anos depois, a quem dedico agora, simbolicamente, a todos os pais.






domingo, 2 de agosto de 2009

Dos amigos, do sarau e da vida


Por Roseli Santos


Sei viver sem muitas coisas. Posso abrir mão de jóias, de carro zero ou de carro usado (não faz a menor diferença), de roupas de marca ou sem marca (também não importa), de botox, de cirurgia plástica, de status, de futilidades, de uma infinidade de bobagens, incluindo-se aí certas pessoas que não me dizem absolutamente nada. Sei e posso viver sem frescura, sem pose, sem dissimulação. Não preciso disso para ser. Sou, simplesmente.


Plagiando comentário feito por alguém um dia desses, quanto mais me relaciono e conheço uma infinidade de pessoas, mais admiro os meus cães. O que não está totalmente fora de cogitação, embora eu saiba que viver sem algumas coisas não pressupõe abrir mão de amigos verdadeiros. E desses, eu não abdico.


Sei viver sem muitas coisas. Posso abrir mão de viagens, de restaurantes, de festas e de bens materiais, mas não posso abrir mão de meus verdadeiros amigos. Jamais! Eles me sustentam, me suportam, me criticam, me transformam e me fortalecem. Me enriquecem, verdadeiramente.


E diante da impermanência de tudo, são eles e seu imenso amor o que realmente importa. Mais do que a própria família, os amigos são afetos gratuitos, vínculos que se formam sem obrigação, sem DNA, sem herança, sem interesses, sem testamento, sem garantia, como tudo na vida. São elos que permanecem, ainda que distantes; ombro para chorar, colo para as horas mais difíceis, alegria incontida que explode a cada reencontro.


Os nossos saraus comprovam. Mais do que referência cultural, tornaram-se um ponto de encontro, de reencontro, momentos de pura magia, de amizade e de muita emoção. E só por isso a vida já valeria à pena. Só pelo fato de agregarmos tantos amigos, tantas parcerias e tanto carinho, já se justificaria cada momento, como o vivenciado na última sexta-feira, dia 31 de julho, no Liverpool Pub, quando comemoramos seis anos de sarau. É sempre uma festa, um acontecimento, um instante único, incapaz de se repetir, capaz de nos tornar ainda mais unidos.


União reforçada com a presença dos músicos do Sarau Beatles e de outros convidados, que mais uma vez nos levaram a uma viagem fantástica no tempo, comprovando, também, não ser possível viver sem música, sem poesia. Lindo testemunhar a presença de tantos amigos dispostos a deixar a TV de lado e sair de casa, em noite fria e chuvosa, para festejar o melhor da vida.


E o melhor da vida não se compra em shopping center ou em supermercado. O melhor da vida está dentro de cada um, em cada momento compartilhado com aqueles que realmente importam, em cada verdadeiro amigo conquistado, em cada sorriso que surge quando se faz o que se gosta, na alegria dividida, na pintura que nos desconcerta, no personagem que nos faz rir, no poema que emociona e na canção que eterniza tudo isso. O resto, não faz a menor diferença. Dá para abrir mão, sem problema.




quinta-feira, 23 de julho de 2009

Anestesiados

Por Roseli Santos



Já vi e ouvi algumas coisas absurdas nesta vida e sei o quanto os seres humanos são vulneráveis diante do sofrimento e das adversidades. Mas até agora não consigo assimilar a informação de que Michael Jackson tomava anestésicos para dormir. Não por ser o ídolo que era (e eu nem sou fã dele). O que me chocou foi o fato de saber que uma pessoa precisa se anestesiar para viver, ou melhor, para dormir e esquecer suas vivências. Que dor carregava essa criatura, tão insuportável a ponto de precisar “apagar”, literalmente, e deletar sua existência, ainda que por algumas horas? Que pensamentos lhe devoravam a mente? Que fantasmas lhe assombravam até a morte?


Mesmo sabendo da história, da infância, da vida, das angústias e das torturas existenciais do cantor, além das excentricidades que marcaram sua trajetória pessoal e profissional, me chocou e me entristeceu profundamente saber que um ser humano precisa mais do que calmantes, de antidepressivos, de terapia, de álcool ou, sei lá, de qualquer outra droga para sobreviver às suas angústias emocionais. Mickael Jackson precisava de muito mais, além da fama, do dinheiro e do assédio que poderia envaidecer e fazer a felicidade de qualquer um. Ele se entorpecia com anestesia, na falta de outros elementos afetivos que pudessem tornar sua vida mais significativa, menos deprimente, menos infeliz.


Concordo que há momentos em que, realmente, pensamos em alternativas para fugir das dores que a vida nos impõe, sejam elas físicas ou mentais. Quantos, muitas vezes, não pensaram em desistir, antes de tentar; em parar, antes de caminhar; em morrer de sede em frente ao mar, diria o músico Djavan.


A história dos que desistem não é contada até o fim. Será sempre incompleta, ainda que possamos reconstituir alguns momentos, juntar fragmentos, querer outro final. Eles desistem, simplesmente, de muitas maneiras. Nem sempre a morte é a saída. Há outros meios de desistir, como se drogar, se embriagar ou se anestesiar, seja lá de que jeito for. Fugir da vida é fugir de si mesmo e do que se é, com todas as dores e as delícias que possam surgir a cada dia.


Acontece que nem todos conseguem carregar o ônus da sua existência sem anestesia. Nem todos passam por aqui suave e impunemente, ainda que tenham talento, prestígio, dinheiro, fama, sucesso e uma obra grandiosa para a posteridade. E aí estão os grandes ídolos que se foram no auge da carreira para provar que nem sempre é possível suportar a dor e a solidão que os acompanham e os ceifam da vida, alheias à multidão que os reverencia e os ama, enquanto os fantasmas e os medos sobrevivem a tudo e a todos.






quarta-feira, 8 de julho de 2009

Aulinha básica

Por Roseli Santos

Respeitar algumas regras básicas de civilidade é o mínimo que se espera de quem vive em comunidade. Curiosamente, há cidadãos e cidadãos, independentemente de classe social. Para alguns, simplesmente vale a sua vontade, em flagrante ignorância daquilo que não lhes interessa.


Tenho testemunhado freqüentemente, nos últimos meses, a falta de respeito de alguns motoristas que circulam nas imediações do prédio onde moro. A rua, sem saída, é literalmente invadida por carros e caminhões que, ignorando as leis de trânsito, estacionam no meio da rua e bloqueiam estacionamento e garagens. E parece que não adianta explicar que aquilo ali é uma rua, porque os motoristas se ofendem com a abordagem e, se bobear, te “metem a boca”, como se justificassem de qualquer maneira a infração cometida.


Chego à conclusão, observando exemplos simples como este, de que o Brasil é mesmo uma farra. Se uma simples lei de trânsito não é observada por motoristas de uma cidade de interior, não é difícil imaginar o que vem acontecendo em todas as esferas políticas ou não. Está aí o Senado para comprovar que tudo é possível.


Mas já dizia o jornalista Cláudio Abramo que a ética é do cidadão. Portanto, cabe a cada um agir de acordo com seus princípios, embora, de um modo geral, o que se vê são atitudes cada vez mais anti-éticas, seja na escola, nas empresas, na política, nas relações pessoais. O vale tudo do Senado se aplica também a pequenos atos cotidianos. Basta olhar para o lado.


Se levar vantagem em tudo continua sendo um péssimo diferencial da sociedade atual, então vai complicar ainda mais. Nada pessimista até aqui, apenas a constatação do óbvio. Preparem-se, porque o pior ainda está por vir. Uma geração educada de forma tão individualista pode gerar futuros cidadãos ainda mais corruptos, mais gananciosos, menos humanos, menos gente.


Uma frase que circulava na internet dia desses questionava algo assim: - Não pergunte que planeta deixará para seus filhos, mas que filhos deixará para o planeta”. É por aí que se transforma uma comunidade, um estado, um país, o mundo. Os que virão dirão por nós.




sexta-feira, 26 de junho de 2009

Pipocando


Estar em comunidade é um prazer e uma alegria. O Sarau com Café junino realizado ontem, dia 25 de junho, nos envolveu mais uma vez em ritmos, histórias, teatro, informações e curiosidades. Desta vez, interagimos com as modas de viola de Flávio e Dariu; com a colaboração muito especial de Clair Wilhelms, nos blocos de leitura; do grupo teatral Cheiro de Chuva; e da pianista Luisa Strelow Rocha. Confraternizamos com pipoca, quentão, rapadura e, principalmente, com a calorosa companhia de todos os amigos que lá estiveram, apesar da noite fria.


Ainda dentro do espírito de São João, reproduzo aqui um texto do psicanalista e educador Rubem Alves, lido pela psicóloga Anna Amélia Fleck, que fala metaforicamente sobre a pipoca e sobre nós, indistintamente:


“É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assom
brosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar po
bre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a po
bre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro”

"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.




terça-feira, 23 de junho de 2009

Era noite de São João



Por Roseli Santos


Festa de São João “de verdade”, na minha adolescência, era a do “Polivalente”. Nada se comparava ao tradicional evento junino que reunia gente de toda a cidade na escola para um encontro de muita diversão e alegria. Além das comidas e bebidas típicas, como pinhão, quentão, amendoim e pipoca, a “Festa do Poli” exigia traje caipira e bigode de carvão para os meninos e pintinhas nas bochechas das meninas. Também não faltava a cômica encenação do Casamento na Roça e a temível Cadeia.


Lembram da Cadeia? Os guris mandavam prender as gurias e vice-versa, numa brincadeira engraçada que rendia, até, alguns ingênuos beijinhos caipiras depois de libertados ou cara feia por vários dias. Já a cantina era o recanto para exagerar na comilança e beber quentão para espantar o frio. E me parece que os invernos daquela época também eram mais intensos, mais gelados. Saía de casa (morava praticamente ao lado da escola) com muita roupa, acompanhada de amigos, abraçada ao namorado também adolescente... e até o namoro, me parece hoje, tinha outra intensidade.


Tão intenso quanto o acontecimento mais esperado da noite: a queima da grande fogueira montada nos fundos da escola. No pátio, todos aguardavam pelo momento em que as chamas tomassem conta e o clarão iluminasse a escuridão. Pura magia ser aquecido ao relento pelo calor das labaredas, mantida a segura distância para evitar acidentes.


A fogueira queimava até o outro dia e era motivo de orgulho para alunos, professores e visitantes. Bons tempos, aliás, em que os estudantes tinham orgulho e respeitavam sua escola, seus mestres. Amávamos o “Poli” e os professores eram referenciais tão importantes que, até hoje, muitos deles continuam na minha memória e no meu coração como lembranças da melhor fase da adolescência.


Na semana passada reencontrei dois professores inesquecíveis daquele período, a Cátia e o Weber, o que certamente me reavivou a memória das festas e de tudo o mais que ocorria naquela época em que freqüentávamos o, assim chamado, primeiro grau. Foram anos de muito aprendizado em uma escola pública, sim senhor , onde recebi a principal bagagem para saber que caminho seguir a partir dali.


Não sei muito da realidade da escola hoje em dia e nem tenho conhecimento se ainda ocorrem as tradicionais festas de São João. Mas se tiver fogueira, por favor me chamem!!


E por falar em São João, nesta quinta-feira, dia 25 de maio, tem Sarau com Café Junino, às 19h30min, no espaço da Cafeteria Sabor Café e Livraria Nova Letra, em Taquara. Não vai ter fogueira, mas muita moda de viola com Flávio Ramos e Dariu, com o músico Amendoim e teatro com o grupo Cheiro de Chuva, além de mim, da Anna Amélia Fleck e da Clair Wilhelms, nos blocos de leitura, intercalados com pipoca e quentão. Todo mundo lá!





quinta-feira, 11 de junho de 2009

Música para viver

Por Roseli Santos


A música se basta em acordes, sons, melodia, harmonia, ritmo e poesia. Os instrumentos em sintonia, a voz que transborda emoção, o equilíbrio, a perfeição. Poucos momentos são tão sublimes quando aos instantes em que silenciamos diante de uma canção. Qualquer música que nos encante transforma-se em oração, em benção, em encantamento.

Saber ouvir é uma dádiva, um prazer raramente cultivado nos dias de hoje. Calar e deixar a música entrar na alma, aquietar a mente e o corpo, ou deixar-se embalar pelo ritmo que envolve e alucina. Sons que mexem com o que temos de melhor, letras que nos comovem e nos desconcertam, melodia que entra e fica no coração para sempre.

Decore a letra de uma música e nunca mais esquecerá. Basta ouvir os primeiros acordes e pronto! Lá embarcamos nós em mais uma viagem, em sonhos, em lembranças, em imagens que se petrificam na memória, independente do tempo.

Meus amigos músicos me completam e mal sabem eles o quanto são fundamentais na minha vida. Ouvir o que se gosta é pura magia, êxtase, satisfação plena, alegria intensa. Momentos únicos compartilhados entre sons que nos unem, ainda que nunca tenhamos tocado um instrumento.

Esta sensação, sempre poderosa em qualquer show, foi reforçada no dia 6 de junho quando os músicos Tiago e Marcelo, do Sarau Beatles de Porto Alegre, nos transportaram, literalmente, para uma viagem fantástica no Liverpool Pub, em Três Coroas. O local, privilegiado em tudo, não poderia ser mais apropriado para o encontro com a banda e com amigos tão especiais.

Embalados pelas canções e pela história dos Beatles, ficamos ali, ouvindo, cantando com alegria e emoção os sucessos dos Garotos de Liverpool, resgatando uma época que a maioria de nós nem viveu completamente. Muitos nem eram nascidos ou ainda eram muito jovens para saber o impacto que aqueles caras iriam causar.

Ainda assim, os Beatles nos fascinam na voz de músicos que reproduzem tão fielmente suas canções que, por alguns momentos, nos sentimos, verdadeiramente, ali, com eles, gritando, chorando, cantando. Momentos como este podem se repetir quando pessoas empreendedoras e culturalmente dispostas apostam na região, sem pensar única e exclusivamente no lucro.

Prazer e alegria não se compram. Podem ser ofertados, compartilhados, estimulados por quem sabe o valor inestimável das coisas que realmente importam. E a música é alegria, prazer e contentamento gratuitos, ainda que se pague por um show. O ingresso nos habilita a muito mais do que o mero acesso a um espetáculo. Nos proporciona momentos de felicidade que só a arte pode oferecer. E aí está a música para provar que a gente não quer só comida. Precisamos disso e muito mais para nos sustentarmos como cidadãos, com direito à plenitude da vida e à infinidade de significados que ela pode ter, além do óbvio.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Big Bang





Por Roseli Santos


O universo, por ser vasto e infinito, nos envolve em mistérios. Quando reduzido ao que nos é mais próximo ou de nosso conhecimento, torna-se um mundo mais palpável, menos assustador. Quando nos propomos a discutir o universo feminino como tema no último sarau não sabíamos ao certo por onde começar e nem aonde aquilo ia terminar.

E a beleza do encontro foi justamente o entrosamento e a enriquecedora troca de ideias entre as convidadas Érica Ostrowski, Fabiana Torres, Inge Dienstmann e Maria Salete Sampaio Hahn. O universo pessoal e profissional de cada uma pode ser compartilhado com o público, entre textos e músicas, entre riso e emoção, entre lembranças e desabafos.


Por isso, acredito que a palavra universo realmente se enquadre na infinidade de possibilidades, de tarefas, de atividades, de afazeres, de dupla jornada e infinitos papéis que as mulheres desempenham hoje, nem sempre com o devido respeito e reconhecimento. É delas a responsabilidade de arcar com a multiplicidade de coisas, muitas vezes além de sua capacidade física e emocional. E é das mulheres, também, o desafio de questionar seu papel e o caminho que seguem, sempre com a possibilidade de voltar atrás e jogar tudo para o alto. Por que não?


Sem limites, o universo feminino está sempre em expansão, em constante movimento, em permanente busca, em rotação, transmutação. Seres em simbiose com o cosmos, em rota de colisão, dispersos em partículas que podem se desagregar a qualquer momento ou explodir em realizações, em alegria, em satisfação em beleza de mulher.


A dita e almejada igualdade com o sexo masculino, tão apregoada por algumas mulheres, se esvai em diferenças que insistem em aflorar, marcantes, fundamentais para mantermos a nossa identidade, sem nos transformamos em outra coisa, senão nós mesmas. Únicas, femininas, vaidosas, iguais nos desejos, nos anseios, na ambição, na luta pela sobrevivência, no esforço para criar os filhos, no desempenho profissional. Mas diferentes dos homens na essência delicada da alma, na fragilidade que transparece quando menos se espera e na emoção de ver o mundo como mulher. Um senhor universo sempre em expansão até que exploda em um novo Big Bang, capaz de se recriar infinitamente.